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Por que sabemos o que precisamos fazer com o dinheiro, mas adiamos?

há 14 minutos
6 min de leitura
Pessoa adiando uma tarefa de organização financeira, representando procrastinação financeira, planejamento, decisões sobre dinheiro e dificuldade de agir no presente.
Saber o que fazer com o dinheiro nem sempre é suficiente. Entre a intenção e a ação existem emoções, hábitos, percepção do futuro e confiança na própria capacidade de decidir.

Publicado em 16/10/2026 / 20:35

Por Silvia Alambert Hala (@silviaalambert_edufin)


Ouça o Artigo

Você sabe que deveria guardar dinheiro. Sabe que deveria começar a investir. Sabe que precisa organizar suas contas. Sabe que aquela dívida não vai desaparecer sozinha. Sabe que deveria pensar na aposentadoria.


E, ainda assim, tantas vezes… adia.


“Depois eu faço.” “Semana que vem eu começo.” “Quando eu tiver mais tempo, organizo.” “Quando eu ganhar mais, invisto.”


O problema é que o “depois” pode virar um padrão, um hábito financeiro que se repete silenciosamente.


Entender por que isso acontece é essencial para transformar intenção em ação.


Procrastinação não é preguiça: é psicologia


A procrastinação costuma ser tratada como falta de disciplina, mas a ciência aponta algo mais complexo.


Uma grande revisão conduzida por Piers Steel analisou 691 correlações e encontrou quatro fatores fortemente associados à procrastinação:


  • Aversão à tarefa

  • Distância da recompensa

  • Autoeficácia

  • Impulsividade


Pense agora em decisões financeiras: poupar, investir, organizar documentos, planejar aposentadoria. Todas envolvem abrir mão de algo agora para obter um benefício no futuro e o presente é muito mais convincente do que o futuro.


O futuro parece longe e isso importa


A economia comportamental estuda o chamado desconto temporal, nossa tendência de valorizar mais recompensas imediatas do que as futuras. Uma pesquisa publicada na Scientific Reports mostrou que há uma associação entre maior desconto temporal e procrastinação em tarefas reais.


É fácil visualizar isso:


  • R$ 100 hoje são concretos.

  • Uma aposentadoria confortável daqui a 25 anos é abstrata.

  • Uma compra traz prazer agora.

  • Uma reserva financeira traz segurança… quando algo acontecer no futuro.


O presente tem imagem. O futuro tem imaginação.


A emoção também participa da decisão


Pesquisadores como Fuschia Sirois e Timothy Pychyl mostram que a procrastinação pode funcionar como uma forma de regulação emocional de curto prazo.


Quando uma tarefa provoca desconforto, adiá-la traz alívio imediato:


  • Não abrir a fatura → alívio.

  • Não olhar a conta → alívio.

  • Não calcular a aposentadoria → alívio.


Acontece que esse alívio é temporário. O desconforto não desaparece; é apenas empurrado para o futuro.


Quando a procrastinação encontra o dinheiro


Um estudo de Gamst-Klaussen, Steel e Svartdal investigou especificamente a procrastinação e as finanças pessoais. Os resultados mostraram que:


  • Pessoas que procrastinam tendem a manter comportamentos financeiros menos saudáveis.

  • A relação é explicada, em grande parte, pela autoeficácia financeira - a confiança na própria capacidade de lidar com o dinheiro.


Isto significa que, muitas vezes, não é apenas: “Eu não quero fazer isso”, mas sim: “Eu não sei se consigo fazer isso direito.”


Quanto menor a confiança, maior a tendência a evitar a tarefa.


Por isso, educação financeira não é só transmitir informação, mas também desenvolver a competência emocional e prática para transformar conhecimento em comportamento.


O perigo do “quando eu ganhar mais”


Existe uma forma elegante de procrastinação financeira: condicionar a ação a um futuro idealizado.


  • “Quando eu ganhar mais, começo a investir.”

  • “Quando meus filhos crescerem, organizarei minhas finanças.”

  • “Quando terminar de pagar isso, começo a guardar.”

  • “Quando tiver mais dinheiro, faço um planejamento.”


O que acaba acontecendo é que o futuro raramente chega “limpo”. Ele costuma trazer novas despesas, novas responsabilidades, novos desejos.


O melhor momento para começar não é quando tudo estiver perfeito. É quando a primeira ação possível está clara.

 

Nem tudo é procrastinação: contexto importa


É essencial reconhecer que nem toda dificuldade financeira resulta de adiamento. Pessoas enfrentam desemprego, inflação, doenças, separações, salários insuficientes e choques econômicos.


Um estudo de 2026 com dados dos EUA e de Singapura encontrou pouca evidência de que a procrastinação, isoladamente, explique arrependimento por não poupar mais. Choques econômicos tiveram papel importante.


A educação financeira precisa ajudar sem transformar toda dificuldade em falha de caráter.


Como tornar o futuro mais próximo


A economia comportamental mostra que não precisamos depender apenas de força de vontade. Richard Thaler e Shlomo Benartzi criaram o programa Save More Tomorrow (em tradução livre: “Economize Mais Amanhã”), que permite às pessoas se comprometerem antecipadamente a poupar parte dos futuros aumentos salariais.


O resultado? A taxa média de poupança aumentou de 3,5% para 13,6% em 40 meses.


A lógica é simples e poderosa:


  • Automatize.

  • Reduza etapas.

  • Comece pequeno.

  • Transforme intenção em sistema.


Em vez de lutar contra o cérebro, trabalhe com ele.


E você?


Existe alguma decisão financeira que você sabe que precisa tomar, mas continua adiando?


Não faça uma lista enorme. Escolha uma.


E pergunte:


Qual é a menor ação possível que me tira do pensamento e me coloca na ação?


A procrastinação não termina quando encontramos motivação. Ela termina quando a primeira ação fica pequena o suficiente para começar.


Educação financeira não é apenas saber o que fazer com o dinheiro, mas também aprender a transformar conhecimento em escolha e escolha em ação.


Atividade prática: “O meu eu de amanhã”


Crianças a partir de 9 anos.


Material necessário: Papel e caneta ou lápis


Peça para que a criança ou o adolescente escolha um objetivo de curto prazo. Pode ser um brinquedo, curso, passeio, celular, viagem.


Peça para que escrevam na folha de papel:


  1. O que você quer?

  2. Quanto custa?

  3. Quando gostaria de conseguir?

  4. O que você pode fazer hoje para alcançar este objetivo antes do prazo final?


Deixe que as ideias fluam. Abra a roda de conversa para que todos possam falar sobre seus objetivos e ideias.


Finalize a atividade deixando claro que o objetivo não é apenas juntar dinheiro, mas que eles entendam que objetivos futuros não se constroem de um dia para o outro e que o futuro começa a ser construído com as escolhas de agora.

 

Infográfico


Infográfico em português sobre procrastinação financeira, com mulher pensativa e post-its; fala de dinheiro, futuro e ação.

Perguntas Frenquentes (FAQ)


O que é procrastinação financeira?

Procrastinação financeira é o adiamento de decisões e ações relacionadas ao dinheiro, mesmo quando sabemos que elas são importantes. Pode aparecer quando adiamos organizar as contas, quitar uma dívida, criar uma reserva, começar a investir ou planejar a aposentadoria. O comportamento pode envolver fatores psicológicos, emocionais e práticos, e não deve ser confundido simplesmente com preguiça ou falta de disciplina.

Uma das razões é que decisões financeiras frequentemente exigem abrir mão de uma recompensa ou conforto no presente em benefício de algo que acontecerá no futuro. O presente é concreto e imediato, enquanto objetivos como aposentadoria, segurança financeira ou formação de patrimônio podem parecer distantes. Além disso, tarefas que provocam desconforto ou insegurança podem ser adiadas porque o adiamento proporciona um alívio emocional momentâneo.

Sim. O adiamento repetido pode dificultar a adoção de comportamentos financeiros importantes, como poupar, organizar as contas, controlar dívidas e planejar o futuro. Estudos citados no artigo relacionam a procrastinação a comportamentos financeiros menos saudáveis e apontam que a autoeficácia financeira — a confiança na própria capacidade de lidar com o dinheiro — pode ter papel importante nessa relação.

Pode ser. Frases como “quando eu ganhar mais, vou investir”, “quando terminar de pagar essa dívida, começo a poupar” ou “quando tiver mais tempo, vou organizar minhas contas” podem transformar uma ação possível hoje em uma promessa para um futuro idealizado. Como novas despesas, responsabilidades e desejos podem surgir, esperar pelas condições perfeitas pode prolongar indefinidamente o início. Uma alternativa é identificar a menor ação financeira possível e começar por ela.

Uma estratégia é reduzir o tamanho da primeira ação e transformar uma intenção em um sistema. Automatizar transferências, reduzir etapas, começar com valores pequenos e estabelecer compromissos antecipados são algumas possibilidades. A pergunta proposta no artigo ajuda nesse processo: “Qual é a menor ação possível que me tira do pensamento e me coloca na ação?”. O objetivo não é esperar pela motivação perfeita, mas criar condições para começar.


Fontes


  • Steel, P. (2007). The Nature of Procrastination. Psychological Bulletin. (PubMed)

  • Sirois, F. M., & Pychyl, T. A. (2013). Procrastination and Short-Term Mood Regulation. Social and Personality Psychology Compass. (Wiley Online Library)

  • Zhang, P. Y., & Ma, W. J. (2024). Temporal discounting predicts procrastination. Scientific Reports. (Nature)

  • Gamst-Klaussen, T., Steel, P., & Svartdal, F. (2019). Procrastination and Personal Finances. Frontiers in Psychology. (Frontiers)

  • Thaler, R. H., & Benartzi, S. (2004). Save More Tomorrow™. Journal of Political Economy.

  • Rohwedder, S., Hurd, M. D., & Börsch-Supan, A. (2026). Self-assessed Life-Cycle Saving Behavior. NBER Working Paper 34835.

Silvia Alambert Hala é mãe, empreendedora educacional, cofundadora da www.creativewealthintl.org, empresa que atua no desenvolvimento de programas de educação financeira para crianças e jovens e treinamento de multiplicadores dos programas no Brasil e em diversos países há cerca de 20 anos, palestrante Tedx São Paulo Adventures, coautora do livro “Pai, Ensinas-me a Poupar” (editora Rei dos Livros, Portugal), educadora financeira de crianças, jovens e suas famílias.


Radium e Creative Wealth Internacional firmaram uma parceria colaborativa para fornecer educação financeira abrangente para brasileiros em todo o mundo.

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