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O dinheiro pode mudar quem somos?

há 11 minutos
6 min de leitura

Se amanhã você recebesse dinheiro suficiente para nunca mais se preocupar com dinheiro, o que mudaria em você?


Pessoa refletindo sobre dinheiro, felicidade, identidade e valores, representando a relação entre comportamento financeiro, riqueza e bem-estar.
Dinheiro pode representar segurança, liberdade, status ou reconhecimento. Mais do que perguntar quanto queremos ter, vale refletir sobre o que esperamos que o dinheiro faça por nós.

Publicado em 09/10/2026 / 20:35

Por Silvia Alambert Hala (@silviaalambert_edufin)


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Se, de um dia para o outro, todas as suas preocupações financeiras desaparecessem, o que aconteceria com você? Você trabalharia de outro jeito? Escolheria outras pessoas para ter por perto? Compraria coisas que hoje parecem impossíveis? Faria mais pelos outros? Ou continuaria sendo essencialmente a mesma pessoa?


Essa pergunta parece simples, mas abre uma discussão profunda sobre o comportamento humano, a identidade e os valores. Dinheiro não é apenas um meio de troca. Ele pode simbolizar segurança, liberdade, status, pertencimento, poder ou até uma forma de validar quem acreditamos ser.


Dinheiro ou aquilo que o dinheiro representa?


Imagine duas pessoas que desejam ganhar mais dinheiro.


  • A primeira busca liberdade: quer escolher onde morar, como trabalhar e como passar o tempo com a família.

  • A segunda busca reconhecimento: acredita que, ao alcançar um determinado patrimônio, será admirada e considerada bem-sucedida.


Ambas querem dinheiro, mas perseguem significados distintos.


A psicologia diferencia objetivos extrínsecos, ligados ao status, à imagem e à riqueza, de objetivos intrínsecos, ligados ao crescimento pessoal, às relações e à contribuição.


Não há nada de errado em querer dinheiro. O ponto é entender o que esperamos que o dinheiro faça por nós.


Pesquisas sobre materialismo mostram que colocar riqueza no centro da vida se associa a menor bem-estar, mas a relação é mais complexa. O problema não é o dinheiro em si, e sim a importância relativa que é dada a ele quando comparado com outros valores.


Quando ter vira uma medida de ser


Existe uma diferença entre dizer:


  • “Quero ter dinheiro.”

  • “Preciso ter dinheiro para me sentir alguém.”


No segundo caso, o dinheiro passa a participar da construção da identidade. Objetos deixam de ser apenas objetos e se tornam sinais de valor pessoal: o carro vira símbolo de sucesso; a casa vira prova de conquista e a bolsa vira demonstração de status.


Quando nossa autoestima depende do que possuímos, cada comparação vira uma corrida sem linha de chegada, pois sempre haverá alguém com mais: mais patrimônio, mais viagens, mais reconhecimento.


É possível aumentar o patrimônio e, ainda assim, sentir que estamos atrás. O dinheiro, nesse caso, não resolve a insegurança; ao contrário, só amplia o campo em que ela está.


Mas, então, dinheiro não traz felicidade?


A resposta é mais complexa.


Estudos apontam que a renda e o bem-estar estão relacionados.


Uma análise com mais de 33 mil adultos nos EUA encontrou um aumento contínuo do bem-estar, à medida que a renda crescia, sem um ponto claro de saturação.


Isso faz sentido: o dinheiro pode melhorar condições concretas da vida.


  • pagar uma conta inesperada;

  • ter acesso à saúde;

  • estudar;

  • viajar;

  • ajudar alguém;

  • ter mais autonomia.


Dinheiro pode, sim, reduzir o sofrimento e ampliar as possibilidades. O problema começa quando esperamos que ele resolva questões internas que dinheiro nenhum resolve sozinho.


O dinheiro também pode ser um espelho


A pergunta mais reveladora talvez seja: “O que o dinheiro diz sobre o que eu valorizo?”


Se eu valorizo a liberdade, busco patrimônio para depender menos de uma renda mensal; se eu valorizo status, direciono dinheiro para símbolos de sucesso; se eu valorizo a família, priorizo a segurança e as oportunidades para meus filhos; já, se eu valorizo reconhecimento, talvez eu nunca sinta que tenho o suficiente.


O dinheiro não cria essas necessidades; ele apenas amplifica o que já existe.


Por isso, educação financeira deveria incluir a pergunta: “O que eu realmente estou tentando comprar?”


Às vezes é um produto. Às vezes é tempo. Às vezes é segurança. Às vezes é liberdade e, às vezes, é uma sensação de valor pessoal - a compra mais cara de todas.


E as crianças?


Essa conversa começa muito antes do primeiro salário.


Crianças observam como os adultos falam sobre dinheiro, marcas, status e sucesso. Assim, constroem suas próprias ideias sobre o que significa “ter uma vida boa”.


Educação financeira não deve ser apenas sobre ensinar quanto custa, mas sobre o porquê de você querer isso.


Essa pergunta muda tudo.

 

Atividade: “O que o dinheiro compra?”


Com crianças ou adolescentes, peça que escrevam e completem a frase com quantos itens quiserem. Dê 2 ou 3 minutos para escreverem e, então, abra a conversa.:


“Se eu tivesse muito dinheiro, eu compraria…”


Depois faça perguntas e preste atenção às respostas:


  • O que cada item proporcionaria?

  • Conforto? Segurança? Liberdade? Reconhecimento?

  • Por que você gostaria de ter isso?

  • Existe alguma forma de obter isso sem precisar comprar o objeto? Você pode alugar por um período ou por um dia (um barco, helicóptero, avião, carro)?


Essa reflexão revela algo poderoso: muitas vezes não queremos o objeto, mas a sensação que imaginamos que ele trará.


Então, o dinheiro muda quem somos?


Por si só, o dinheiro não tem o poder de mudar ninguém; ele apenas reforça aquilo que uma pessoa já é, bem como o que ela já carrega dentro dela: suas crenças, seus hábitos e comportamentos.


Dinheiro pode ampliar possibilidades, reduzir preocupações e aumentar autonomia. Pode também alimentar comparações, status e uma busca interminável por “mais”.


Não existe uma única relação entre dinheiro e comportamento. Existe a relação que cada pessoa constrói com ele.


E uma das perguntas mais importantes da educação financeira poderia ser: “Se o seu dinheiro pudesse falar sobre você, o que ele diria que você valoriza?”


No fim, não se trata apenas de quanto dinheiro temos. Trata-se de quanto poder damos ao dinheiro para definir quem somos.


Infográfico


Infográfico em português sobre dinheiro e identidade, com mulher pensativa ao pôr do sol e textos segurança, liberdade, status, propósito.

Perguntas Frenquentes (FAQ)

 

O dinheiro pode mudar quem somos?

O dinheiro pode ampliar possibilidades, reduzir preocupações e aumentar a autonomia, mas sua influência depende da relação que cada pessoa constrói com ele. Quando passa a ocupar um papel central na identidade, pode também reforçar comparações, busca por status e a sensação de que nunca temos o suficiente.

A relação entre dinheiro e felicidade é complexa. Uma renda maior pode melhorar condições concretas de vida, proporcionando mais segurança, acesso à saúde, educação, experiências e autonomia. Ao mesmo tempo, o dinheiro não resolve sozinho questões internas, relacionais ou de identidade. O significado atribuído ao dinheiro também importa.

Materialismo é uma orientação na qual riqueza, posses e aquisição assumem uma importância elevada na vida. O problema não está simplesmente em possuir bens ou desejar prosperidade, mas em colocar a riqueza no centro da definição de sucesso, felicidade ou valor pessoal.

Uma forma de refletir é perguntar: “O que eu espero sentir ou conquistar com essa compra?”. Às vezes, o objeto representa segurança, liberdade, reconhecimento, conforto ou pertencimento. Identificar essa necessidade pode ajudar a perceber se estamos realmente buscando o produto ou a sensação que imaginamos que ele proporcionará.

A educação financeira pode ir além de ensinar quanto as coisas custam. É possível conversar sobre por que queremos determinadas coisas, o que elas representam e quais alternativas existem para obter determinadas experiências. A atividade “O que o dinheiro compra?” proposta no artigo é uma maneira simples de iniciar essa reflexão em família.


Fontes e leituras


  • Richins, M. L. & Dawson, S. (1992). A Consumer Values Orientation for Materialism and Its Measurement. Journal of Consumer Research.

  • Kasser, T. & Ryan, R. M. (1993). A Dark Side of the American Dream: Correlates of Financial Success as a Central Life Aspiration. Journal of Personality and Social Psychology.

  • Dittmar, H., Bond, R., Hurst, M. & Kasser, T. (2014). The Relationship Between Materialism and Personal Well-Being: A Meta-Analysis. Journal of Personality and Social Psychology.

  • Kahneman, D. (2011). Thinking, Fast and Slow.

  • Associations between two conceptualizations of materialism and subjective well-being in China: A meta-analysis of studies from 1998 to 2022.

  • Killingsworth, M. A. (2021). Experienced well-being rises with income, even above $75,000 per year. Proceedings of the National Academy of Sciences.

Silvia Alambert Hala é mãe, empreendedora educacional, cofundadora da www.creativewealthintl.org, empresa que atua no desenvolvimento de programas de educação financeira para crianças e jovens e treinamento de multiplicadores dos programas no Brasil e em diversos países há cerca de 20 anos, palestrante Tedx São Paulo Adventures, coautora do livro “Pai, Ensinas-me a Poupar” (editora Rei dos Livros, Portugal), educadora financeira de crianças, jovens e suas famílias.


Radium e Creative Wealth Internacional firmaram uma parceria colaborativa para fornecer educação financeira abrangente para brasileiros em todo o mundo.


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