top of page

ATÉ ONDE A FALTA DE DINHEIRO PODE AFETAR UM HOMEM?

há 7 horas
6 min de leitura

Homem sentado diante de contas e documentos financeiros, refletindo sobre dificuldades econômicas, pressão emocional e a importância de buscar ajuda e conversar sobre dinheiro.
Problemas financeiros podem pesar muito mais do que no orçamento. Para muitos homens, a pressão de resolver tudo sozinho pode dificultar o diálogo e a busca por ajuda. Falar sobre dinheiro, compartilhar dificuldades e procurar apoio também são formas de cuidar de si e da família.

Publicado em 18/09/2026 / 18:00

Por Fernando Ribeiro (@fernando.ribeiro.oficial) (@apoefoficial)


Ouça o Artigo

Paulo olha para o extrato bancário.


São 15h27.


Ele respira fundo e faz algumas contas mentalmente. Pensa nas contas que ainda precisam ser pagas, nas despesas da casa e nas responsabilidades com a família.


Ele trabalha. Tem renda. Tem responsabilidades.


Mas, naquele momento, parece que nada disso é suficiente.


Paulo fecha o aplicativo do banco.


Não comenta com ninguém.


João está na cozinha.


São 23h56.


A casa está em silêncio, mas sua cabeça não.


Ele pensa em como vai conseguir manter tudo funcionando nos próximos meses. Pensa no banco, nas contas, nos outros credores e nas despesas que continuam chegando.


Ele poderia conversar com alguém.


Mas prefere guardar aquilo para si.


Afinal, aprendeu que homem precisa resolver seus próprios problemas.


Sérgio está no trabalho.


São 12h33.


Ele havia guardado dinheiro durante meses para realizar um desejo importante da filha: a festa de 15 anos.


Mas parte importante daquele dinheiro havia sido perdida em jogos digitais.


Agora, além da perda financeira, existe a angústia.


A culpa.


A vergonha.


E uma pergunta que não sai da cabeça:


“Como eu vou contar isso para a minha família?”


Três homens.


Três histórias diferentes.


Mas talvez exista algo em comum entre eles: a dificuldade de falar sobre dinheiro quando a situação financeira começa a pesar emocionalmente.


E é justamente aí que precisamos olhar para uma questão que muitas vezes permanece escondida.


Até onde a falta de dinheiro — ou uma situação financeira difícil — pode afetar a vida de um homem?


Não existe uma resposta simples.


Problemas financeiros podem envolver desemprego, redução de renda, endividamento, decisões equivocadas, emergências familiares, separações, doenças, perdas, apostas, jogos, falta de planejamento ou uma combinação de diferentes fatores.


Por isso, dificuldades financeiras não devem ser tratadas simplesmente como consequência de falta de educação financeira.


A realidade financeira de uma pessoa é resultado de uma combinação de circunstâncias, escolhas e acontecimentos que nem sempre estão sob seu controle.


Mas existe outro elemento que merece atenção: a maneira como o homem lida com essa situação.


No Brasil, os homens representam cerca de 80% dos óbitos por suicídio registrados em diferentes levantamentos oficiais.


Esse dado não significa que dificuldades financeiras sejam a causa desses casos.


O suicídio é um fenômeno complexo e multifatorial, relacionado a diferentes fatores individuais, sociais, econômicos e de saúde.


Mas os dados mostram que existe uma questão importante relacionada à saúde dos homens e à maneira como muitos deles lidam com sofrimento, vulnerabilidade e busca por ajuda.


Durante muito tempo, a imagem do homem esteve associada à ideia de força, controle e capacidade de resolver problemas.


O homem deveria prover.


O homem deveria proteger.


O homem deveria encontrar uma solução.


O homem não deveria demonstrar fragilidade.


E talvez seja justamente aí que o dinheiro encontre uma relação ainda mais profunda com a vida masculina.


Porque quando o homem acredita que precisa resolver tudo sozinho, uma dificuldade financeira deixa de ser apenas uma questão de orçamento.


Ela pode se transformar em vergonha.


Pode virar medo.

Pode gerar ansiedade.

Pode afetar relacionamentos.

Pode comprometer a autoestima.

Pode fazer com que ele esconda informações importantes de quem está ao seu lado.

Pode fazer com que ele adie a busca por ajuda.


E aquilo que poderia ser enfrentado como um problema financeiro passa a ser vivido como um problema pessoal.


“Eu não estou conseguindo.”

“Eu deveria ter previsto isso.”

“Eu deveria conseguir resolver.”

“Não posso contar para ninguém.”

“Minha família não pode saber.”

“Eu preciso dar um jeito.”


O problema é que ninguém deveria precisar carregar sozinho uma situação que pode ser compartilhada.


Uma pesquisa realizada pelo Gleeden com cerca de 7 mil usuários homens do próprio serviço encontrou que 59% dos entrevistados afirmaram esconder parte das finanças das parceiras.


O número chama atenção, mas precisa ser interpretado dentro de seus limites: trata-se de uma pesquisa realizada com usuários da própria plataforma, e não de uma amostra representativa de todos os homens brasileiros.


Ainda assim, o resultado ajuda a colocar em discussão um comportamento que pode existir dentro de muitos relacionamentos: o segredo financeiro.


Esconder dívidas.

Esconder gastos.

Esconder uma perda.

Esconder um aumento de salário.

Esconder um bônus.

Esconder uma decisão financeira.


Às vezes, a justificativa é evitar uma discussão.


Em outras situações, pode existir vergonha.


Pode haver medo de julgamento.


Ou simplesmente a sensação de que cada pessoa tem direito de controlar o próprio dinheiro sem precisar prestar contas.


Mas existe uma diferença importante entre autonomia financeira e falta de transparência dentro de uma relação.


Quando duas pessoas compartilham uma vida, determinadas decisões financeiras também podem produzir consequências para as duas.


O que não é conversado pode crescer em silêncio.


E o silêncio pode transformar um problema administrável em uma situação muito mais difícil.


Paulo poderia continuar escondendo sua preocupação.

João poderia continuar tentando resolver tudo sozinho.

Sérgio poderia continuar carregando a culpa pela perda do dinheiro.


Mas existem outros caminhos.


Paulo pode olhar novamente para suas contas, conversar com a família e admitir que a renda já não está sendo suficiente para manter o padrão de vida atual.


Isso não significa fracasso.


Significa reconhecer a realidade.


A partir daí, ele pode reorganizar as despesas, rever prioridades, negociar dívidas e construir, junto com a família, um novo planejamento.


João pode decidir que não precisa enfrentar sozinho a pressão financeira.


Pode procurar alguém de confiança.

Pode conversar com a companheira.

Pode buscar orientação profissional.

Pode descobrir que o problema, quando colocado sobre a mesa, é difícil, mas não necessariamente impossível de enfrentar.


Sérgio pode reconhecer que cometeu uma decisão financeira ruim.


Pode assumir a responsabilidade pelo que aconteceu sem transformar aquele erro em uma definição sobre quem ele é.

Pode conversar com a família.

Pode buscar ajuda para compreender o comportamento que o levou a perder o dinheiro.


E pode começar novamente.


Os três casos são diferentes.


Mas existe uma mensagem em comum:


Problemas financeiros não precisam ser enfrentados em silêncio.


A educação financeira pode ajudar nesse processo porque não trata apenas de planilhas, investimentos ou orçamento.


Ela também envolve comportamento.


Envolve reconhecer padrões.

Envolve compreender escolhas.

Envolve aprender a planejar.

Envolve conversar sobre dinheiro.

Envolve identificar riscos.

E envolve perceber quando uma situação ultrapassou aquilo que conseguimos administrar sozinhos.


O papel de provedor, muitas vezes reforçado pela sociedade, pode fazer com que o homem carregue sozinho uma responsabilidade que deveria ser compartilhada.


Mas pedir ajuda não elimina a responsabilidade.


Pedir ajuda pode ser justamente uma forma de exercê-la.


Quando um homem reconhece que está endividado, ele não deixa de ser responsável.

Quando admite que perdeu dinheiro, não deixa de ser responsável.

Quando diz que está com medo, não deixa de ser responsável.

Quando procura ajuda profissional, também não.


Pelo contrário.


Reconhecer limites pode ser o primeiro passo para recuperar o controle.


E talvez precisemos mudar a maneira como ensinamos os homens a lidar com dinheiro.


Não basta ensinar a ganhar.

Não basta ensinar a investir.

Não basta ensinar a economizar.


Também precisamos ensinar a conversar.


A planejar em conjunto.

A reconhecer erros.

A lidar com frustrações.

A pedir ajuda.

A compreender que dinheiro faz parte da vida, mas não define o valor de uma pessoa.


Porque, no final, talvez o problema não seja apenas quanto dinheiro existe.


Talvez seja também o significado que atribuímos a ele.


Para alguns homens, dinheiro representa segurança.

Para outros, representa liberdade.

Para outros, representa sucesso.


E para muitos, pode representar a própria identidade.


Quando essa identidade é ameaçada por uma dificuldade financeira, o sofrimento pode ser muito maior do que o valor que aparece no extrato bancário.


Por isso, falar sobre dinheiro também pode ser uma forma de cuidado.


Conversar sobre dívidas.

Conversar sobre perdas.

Conversar sobre dificuldades.

Conversar sobre medo.

Conversar sobre expectativas.

Conversar sobre aquilo que não está dando certo.


Não é preciso esperar que a situação fique insustentável para procurar ajuda.


Se você está enfrentando dificuldades financeiras, converse com alguém de confiança, procure orientação financeira ou profissional de saúde quando necessário.


E se o sofrimento estiver intenso, houver pensamentos de morte ou de suicídio, procure ajuda imediatamente. No Brasil, o Centro de Valorização da Vida (CVV) atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia, além de oferecer atendimento pelos canais oficiais.


Talvez Paulo precise apenas dizer:

“Eu não estou conseguindo sozinho.”

Talvez João precise admitir:

“Estou preocupado e preciso conversar.”

Talvez Sérgio precise reconhecer:

“Eu cometi um erro e preciso de ajuda.”


São frases simples.


Mas, para quem passou a vida acreditando que precisa resolver tudo sozinho, elas podem exigir muita coragem.


E talvez seja justamente essa a reflexão que precisamos levar para além do Setembro Amarelo.


Homens também precisam falar.

Homens também precisam ser ouvidos.

Homens também podem reconhecer suas dificuldades.

Homens também podem pedir ajuda.


Porque cuidar da vida financeira não significa apenas cuidar do dinheiro.


Significa cuidar das escolhas, dos relacionamentos, dos projetos, da família e da própria vida.


E, algumas vezes, a decisão financeira mais importante não é cortar uma despesa, quitar uma dívida ou aumentar a renda.


É conseguir dizer:

“Eu preciso de ajuda.”


Sobre o Autor:


Fernando Alves Ribeiro, Psicanalista em Formação, Consultor Financeiro, Palestrante, Escritor e Analista Comportamental. Diretor administrativo da APOEF.


Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page