top of page

O dinheiro também pesa: o que a prevenção ao suicídio tem a ver com a educação financeira

21h
4 min de leitura
Pessoa sentada diante de contas e documentos financeiros, refletindo sobre dívidas e saúde mental, com uma fita amarela representando o Setembro Amarelo e a importância de buscar apoio.
Problemas financeiros podem pesar muito mais do que no orçamento. Dívidas, vergonha, isolamento e sofrimento também afetam a saúde mental. Falar sobre dinheiro, buscar informação e pedir ajuda são passos importantes.

Publicado em 10/09/2026 / 10:00

Por APOEF (@apoefoficial)


Ouça o Artigo

Hoje, 10 de setembro, o mundo marca o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. A data nasceu em 2003, por iniciativa da Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio (IASP), em parceria com a Organização Mundial da Saúde (OMS), e desde então se tornou um compromisso global de falar abertamente sobre um tema cercado de silêncio. No Brasil, o movimento ganhou corpo com o “Setembro Amarelo”, criado em 2014 pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) com o Conselho Federal de Medicina (CFM), com a primeira edição em 2015.


A origem do símbolo amarelo também traz uma história. Em 1994, o jovem americano Mike Emme, de 17 anos, tirou a própria vida. Ele havia restaurado um Ford Mustang 1968 pintado de amarelo, o famoso Mustang Mike. Na despedida, a família distribuiu cartões com uma fita amarela e o pedido de que, em momentos de desespero, as pessoas buscassem ajuda. A fita virou o símbolo da campanha.


Os números ajudam a dimensionar o problema. Segundo a OMS, 727 mil pessoas morreram por suicídio no mundo em 2021, uma taxa de 8,9 mortes por 100 mil habitantes, mais do que as mortes por HIV/Aids, câncer de mama ou conflitos armados. No Brasil, o Sistema de Informação sobre Mortalidade registrou 17.009 mortes por suicídio em 2023, o equivalente a 8,6 por 100 mil. O suicídio é a quarta causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos, e a taxa entre adolescentes de 15 a 19 anos cresceu 49,3% entre 2016 e 2021.


Agora vamos ao ponto que conecta o tema à educação financeira. Mesmo que a data tenha nascido por outros motivos, o sofrimento financeiro não é apenas um detalhe nessa equação. A OMS, em seus relatórios de prevenção, reconhece fatores econômicos, como dívidas, entre os determinantes de risco. Uma revisão sistemática de Richardson e colegas (2013), citada na dissertação “Quando a dívida compromete a saúde mental”, da Universidade Estadual do Ceará, encontrou que pessoas endividadas têm de 2,5 a 8,5 vezes mais chances de desenvolver transtornos mentais e um risco quase oito vezes maior de cometer suicídio.


Pesquisas brasileiras reforçam esse elo. Um levantamento da Serasa de 2022 mostrou que 83% dos endividados sofrem de insônia por causa das dívidas e 74% têm dificuldade de se concentrar. Na edição de 2024, respondida por 1.766 entrevistados, 55% relataram já ter atravessado problemas de saúde mental e dificuldades financeiras ao mesmo tempo; além disso, 61% se isolam socialmente em meio a turbulências financeiras e 69% evitam conversar sobre dinheiro com amigos e família. O isolamento e a vergonha são exatamente os fatores que mais afastam uma pessoa em sofrimento de suas redes de apoio.


Um capítulo recente dessa história merece atenção especial: as apostas online. Uma pesquisa do Instituto Locomotiva, divulgada em agosto de 2024, mostrou que 86% dos apostadores têm dívidas, 64% estão negativados e 45% admitem que o jogo já causou prejuízos financeiros. Indo além, o dossiê “A saúde dos brasileiros em jogo”, publicado pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) em dezembro de 2025, estimou em R$ 38,8 bilhões por ano o custo social das apostas no Brasil, sendo R$ 17 bilhões desse total associados a mortes adicionais por suicídio. O mesmo documento lembra que estudos internacionais documentam a associação direta entre o “transtorno do jogo” e o agravamento de quadros de ansiedade e depressão. Para quem entra nas plataformas na esperança de quitar dívidas, o efeito costuma ser o oposto: a dívida cresce, a vergonha aumenta e o isolamento se aprofunda.


Compreender o funcionamento dos juros compostos, os riscos do crédito rotativo e a importância de uma reserva de emergência são ferramentas que reduzem o estresse e, sobretudo, devolvem à pessoa a certeza de que existe saída.


A educação financeira é, nesse sentido, uma forma de prevenção. Ela ensina a nomear o problema, a medir o que pode ser enfrentado, a negociar em vez de fugir e a pedir ajuda sem se sentir fracassado. Mas atenção: para quem já está em sofrimento agudo, o caminho é outro e mais urgente: apoio profissional e acolhimento. O Centro de Valorização da Vida (CVV) atende gratuitamente pelo telefone *188*, 24 horas por dia.


Sua relação com o dinheiro tem sido fonte de segurança ou de sofrimento? Se a resposta for sofrimento, o primeiro passo não é acertar as contas sozinho; é falar sobre isso. Prevenção também se faz com educação, escuta e coragem de conversar.


Referências


  1. International Association for Suicide Prevention. World Suicide Prevention Day 2025: Changing the Narrative on Suicide. IASP, 1º de setembro de 2025. https://www.iasp.info/2025/09/01/world-suicide-prevention-day-2025

  2. Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul. Boletim Epidemiológico de Suicídio 2025. SES-RS, 2025. https://saude.rs.gov.br/upload/arquivos/202603/16162755-boletim-suicidio-2025-10-mar.pdf

  3. Serasa. 83% dos endividados sofrem insônia por conta das dívidas e 74% têm dificuldade de se concentrar. Serasa Imprensa, novembro de 2022. https://www.serasa.com.br/imprensa/83-dos-endividados-sofrem-insonia-por-conta-das-dividas-e-74-tem-dificuldade-de-se-concentrar-revela-pesquisa-da-serasa

  4. Gov.br Investidor. Setembro Amarelo e o papel do bem-estar financeiro na saúde mental. Governo Federal, 4 de setembro de 2025. https://www.gov.br/investidor/pt-br/penso-logo-invisto/setembro-amarelo-e-o-papel-do-bem-estar-financeiro-na-saude-mental

  5. Isadora Morais. Quando a dívida compromete a saúde mental. Dissertação de mestrado, Universidade Estadual do Ceará, 2021. https://www.uece.br/wp-content/uploads/sites/49/2021/04/ISADORA-MORAIS.pdf

  6. Revista Pesquisa Fapesp. “Quase 11 milhões de brasileiros apostam de modo a pôr em risco a saúde e as finanças”. Levantamento Lenad III, Unifesp. https://revistapesquisa.fapesp.br/quase-11-milhoes-de-brasileiros-apostam-de-modo-a-por-em-risco-a-saude-e-as-financas

  7. Ministério da Saúde. Suicídio (Prevenção). Página oficial, acesso em setembro de 2026. http://gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/suicidio-prevencao


APOEF – Associação de Profissionais Orientadores e Educadores em Finanças (http://www.apoef.com.br)

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page