Aprender todos os dias: como a neuroplasticidade transforma o cérebro

Publicado em 181/09/2026 / 20:35
Por Silvia Alambert Hala (@silviaalambert_edufin)
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E se uma das melhores formas de investir no nosso futuro fosse reservar alguns minutos todos os dias para aprender alguma coisa nova?
Não precisa ser um novo idioma, uma pós-graduação ou um curso de longa duração. Pode ser uma página de um livro, uma nova habilidade, uma conversa que nos faça pensar, um conceito que desconhecíamos ou até mesmo uma pergunta para a qual ainda não sabemos a resposta.
A ideia de aprender todos os dias ganhou uma nova dimensão com o avanço das pesquisas sobre neurociência.
Nosso cérebro não é uma estrutura fixa: ele muda de acordo com aquilo a que prestamos atenção, aquilo que praticamos e as experiências que repetimos.
Esse fenômeno é conhecido como neuroplasticidade e há uma consequência importante para a educação: aprender não é apenas receber informação, é participar ativamente de um processo que modifica a maneira como o cérebro funciona.
Neuroplasticidade: o cérebro continua aprendendo
Durante muito tempo, acreditou-se que a capacidade de mudança do cérebro seria muito maior na infância e diminuiria drasticamente na vida adulta.
Hoje sabemos que o cérebro mantém sua capacidade de adaptação ao longo da vida. Novas experiências, habilidades e desafios podem fortalecer determinadas conexões e modificar circuitos neurais. A diferença é que, especialmente na idade adulta, a mudança exige participação mais intencional: atenção, esforço, prática e envolvimento.
É por isso que aprender algo realmente novo pode ser desconfortável.
Quando uma criança aprende a administrar o próprio dinheiro, por exemplo, não está simplesmente decorando o significado de “economizar”. Ela está relacionando conceitos, tomando decisões, observando consequências e construindo novas associações.
O mesmo acontece com um adulto que aprende um idioma, toca um instrumento ou desenvolve uma nova competência profissional.
O cérebro muda quando somos desafiados a fazer algo que ainda não dominamos.
A atenção é parte da aprendizagem
Não existe aprendizado profundo sem atenção.
Pesquisas e conteúdos de divulgação científica sobre neuroplasticidade e aprendizagem, como os apresentados pelo neurocientista Andrew Huberman, destacam a importância da atenção para os processos envolvidos na aprendizagem. Quando direcionamos nossa atenção de maneira consistente para determinada tarefa, sistemas neuromodulatórios ajudam a sinalizar ao cérebro que aquela experiência é relevante.
Isso ajuda a explicar um problema contemporâneo: podemos passar horas diante de conteúdos e, ainda assim, aprender muito pouco, pois consumir informação não é necessariamente aprender.
Aprender exige algum grau de participação ativa.
Ler uma página e fechar o livro para tentar explicar o que acabamos de ler é diferente de simplesmente passar os olhos pelo texto.
Assistir a uma aula é diferente de tentar resolver um problema usando aquilo que foi ensinado.
E é justamente aqui que entra uma das descobertas mais interessantes da psicologia cognitiva.
Testar-se pode ensinar mais do que reler
Os pesquisadores Henry Roediger e Jeffrey Karpicke estudaram o chamado testing effect, ou efeito de teste.
A ideia é simples: tentar recuperar uma informação da memória pode fortalecê-la mais do que simplesmente estudar novamente o mesmo conteúdo.
Em outras palavras, depois de aprender alguma coisa, em vez de perguntar apenas “eu entendi?”, podemos perguntar:
“Consigo explicar isso sem olhar?”
Essa pequena mudança transforma o estudante de espectador em participante.
O princípio pode ser utilizado em qualquer idade: uma criança pode fechar o livro e explicar para os pais o que aprendeu; um professor pode fazer três perguntas ao final da aula; um adulto pode escrever, de memória, os três principais conceitos de um artigo que acabou de ler.
O cérebro precisa ser convidado a buscar a informação, e não apenas reconhecê-la quando ela aparece novamente.
Aprender também significa descansar
Existe ainda uma parte da aprendizagem que frequentemente esquecemos: o descanso.
O aprendizado não termina quando fechamos o livro.
O sono participa ativamente da consolidação das memórias. Pesquisas mostram que diferentes estágios do sono contribuem para estabilizar e reorganizar informações adquiridas durante a vigília.
Isso muda uma ideia bastante popular sobre produtividade.
Estudar até a exaustão não significa necessariamente aprender mais.
Uma sessão de concentração, seguida por períodos adequados de descanso e uma boa noite de sono, pode ser muito mais eficiente do que transformar o aprendizado em uma maratona.
Conteúdos de divulgação científica sobre aprendizagem e neuroplasticidade, como os apresentados pelo Huberman Lab, também destacam a importância de alternar períodos de atenção focada com momentos de recuperação.
Talvez seja hora de parar de tratar o descanso como o inimigo da produtividade. Em determinadas situações, descansar faz parte do estudo.
O hábito de aprender vale mais do que a quantidade de informação
O objetivo não deveria ser transformar a vida em uma competição para ver quem acumula mais conhecimento.
Conhecimento só ganha valor quando consegue modificar nossa maneira de pensar e agir.
É nesse ponto que livros como Make It Stick, de Peter C. Brown, Henry L. Roediger III e Mark A. McDaniel, e Peak, de Anders Ericsson e Robert Pool, ajudam a ampliar a conversa sobre aprendizagem.
Aprender melhor envolve prática deliberada, recuperação ativa, repetição adequada, feedback e disposição para lidar com erros.
Carol Dweck, em Mindset, também popularizou uma ideia poderosa para a educação: habilidades não precisam ser vistas como características completamente fixas. A maneira como enxergamos nossa capacidade de aprender influencia a maneira como enfrentamos desafios.
Para uma criança, isso pode significar trocar:
“Eu não sei fazer isso.”
por:
“Eu ainda não sei fazer isso.”
Parece uma palavra pequena, mas “ainda” abre uma porta.
E o que isso tem a ver com educação financeira?
Tudo.
Educação financeira não deveria ensinar apenas conceitos sobre dinheiro. Deve desenvolver capacidade de pensar, questionar, planejar, comparar alternativas e tomar decisões.
Quando uma criança aprende sobre orçamento, por exemplo, podemos simplesmente ensinar uma regra.
Ou podemos apresentar um desafio:
“Você tem R$ 50. Precisa escolher entre comprar algo que deseja hoje ou guardar parte do dinheiro para alcançar um objetivo maior. O que faria?”
Nesse segundo cenário, a criança não está apenas recebendo informação, mas está aprendendo a decidir.
E esse é um dos maiores objetivos da educação: não formar pessoas que sabem responder a todas as perguntas, mas pessoas capazes de continuar fazendo boas perguntas.
Atividade prática para pais e educadores
O desafio dos 10 minutos
Durante uma semana, escolha 10 minutos por dia para aprender alguma coisa nova.
Pode ser um conceito financeiro, uma palavra em outro idioma, uma curiosidade científica, uma habilidade prática ou um assunto escolhido pela própria criança.
Mas existe uma regra: depois de aprender, é preciso explicar.
Ao final dos 10 minutos, retire o material e peça que a criança responda:
O que eu aprendi hoje?
O que mais me surpreendeu?
Como eu poderia usar esse conhecimento na vida real?
O que ainda não entendi?
Que pergunta eu gostaria de investigar amanhã?
Na escola, o professor pode transformar as respostas em um “Diário de Descobertas”.
Em casa, pais e filhos podem fazer o exercício juntos.
E há uma pequena mudança que pode fazer toda a diferença: o adulto também participa.
A criança precisa perceber que aprender não é algo que termina quando termina a escola.
É um comportamento que podemos carregar pela vida inteira.
Para levar para a semana
Não pergunte apenas:
“O que você aprendeu na escola hoje?”
Experimente perguntar:
“O que você descobriu hoje que não sabia ontem?”
A primeira pergunta procura uma resposta.
A segunda convida à curiosidade e é justamente aqui que uma educação verdadeiramente transformadora tem início: na compreensão de que o cérebro não foi feito para permanecer parado.
Aprender é uma forma de continuar crescendo.
Infográfico

Perguntas Frenquentes (FAQ)
O que acontece no cérebro quando aprendemos algo novo?
Quando aprendemos algo novo, o cérebro passa por processos de adaptação associados à neuroplasticidade. A prática, a atenção e a repetição podem fortalecer e reorganizar conexões neurais, permitindo o desenvolvimento de novos conhecimentos e habilidades ao longo da vida.
É possível aprender coisas novas em qualquer idade?
Sim. O cérebro mantém capacidade de adaptação durante toda a vida. Embora a aprendizagem possa apresentar características diferentes conforme a idade, adultos também podem desenvolver novos conhecimentos, habilidades e estratégias por meio de atenção, prática e envolvimento ativo.
Por que testar o que aprendemos ajuda na memória?
Tentar recuperar uma informação da memória, em vez de apenas reler o conteúdo, pode fortalecer sua retenção. Esse fenômeno é conhecido como efeito de teste ou testing effect e é uma das estratégias estudadas pela psicologia cognitiva para melhorar a aprendizagem.
Qual é a importância do sono para a aprendizagem?
O sono participa dos processos de consolidação e reorganização das memórias. Por isso, descansar adequadamente faz parte do processo de aprendizagem e pode ser mais produtivo do que estudar continuamente até a exaustão.
Como criar o hábito de aprender todos os dias?
Uma forma simples é reservar alguns minutos diariamente para aprender algo novo e, depois, tentar explicar o que foi aprendido sem consultar o material. Fazer perguntas, aplicar o conhecimento na prática e registrar o que ainda não foi compreendido também ajudam a transformar a aprendizagem em um hábito contínuo.
Silvia Alambert Hala é mãe, empreendedora educacional, cofundadora da www.creativewealthintl.org, empresa que atua no desenvolvimento de programas de educação financeira para crianças e jovens e treinamento de multiplicadores dos programas no Brasil e em diversos países há cerca de 20 anos, palestrante Tedx São Paulo Adventures, coautora do livro “Pai, Ensinas-me a Poupar” (editora Rei dos Livros, Portugal), educadora financeira de crianças, jovens e suas famílias.
Radium e Creative Wealth Internacional firmaram uma parceria colaborativa para fornecer educação financeira abrangente para brasileiros em todo o mundo.
Fontes e Referências
Huberman, Andrew. Huberman Lab. Conteúdos sobre neuroplasticidade, foco, aprendizagem e memória.
Roediger III, Henry L.; Karpicke, Jeffrey D. “The Power of Testing Memory: Basic Research and Implications for Educational Practice.” Perspectives on Psychological Science, 2006.
Diekelmann, Susanne; Born, Jan. “The Memory Function of Sleep.” Nature Reviews Neuroscience, 2010.
Klinzing, Jens G.; Niethard, Niels; Born, Jan. “Mechanisms of Systems Memory Consolidation During Sleep.” Nature Neuroscience, 2019.
Brown, Peter C.; Roediger III, Henry L.; McDaniel, Mark A. Make It Stick: The Science of Successful Learning. Harvard University Press.
Ericsson, Anders; Pool, Robert. Peak: Secrets from the New Science of Expertise.
Dweck, Carol S. Mindset: The New Psychology of Success.
Huberman Lab. Conteúdos sobre memória, aprendizagem e neuroplasticidade.
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