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Autonomia Financeira do Idoso: Respeito Também se Demonstra nas Decisões Sobre o Dinheiro

31 de jul.
4 min de leitura

Envelhecer não significa perder autonomia. Entenda por que o idoso deve participar das decisões sobre seu patrimônio e sua vida financeira.


Pessoa idosa analisando documentos financeiros em casa enquanto conversa com um familiar em um ambiente de respeito e parceria, simbolizando autonomia financeira e dignidade na longevidade.
Autonomia financeira também faz parte do direito de envelhecer com dignidade.

Publicado em 31/07/2026 / 18:00

Por Janina Jacino (@financassemfronteira) (@apoefoficial)


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Falar sobre longevidade tornou-se um tema frequente. De certa forma, virou moda. Mas envelhecer não deveria ser tratado como uma tendência. É uma etapa natural da vida, que, se tudo correr bem, todos nós teremos o privilégio de alcançar.


O envelhecimento merece respeito, não infantilização


O idoso é, antes de tudo, uma pessoa. Um cidadão com direitos, deveres, história, sonhos e capacidade de decidir sobre a própria vida. Ainda assim, observo, com frequência, situações constrangedoras envolvendo a forma como os idosos são tratados. Faço essa reflexão também a partir da minha própria experiência. Aos 72 anos, sinto-me à vontade para falar sobre um contexto do qual faço parte.


Naturalmente, cada pessoa envelhece de maneira diferente. Somos diversos em nossa história, cultura, condição econômica, saúde, gênero e trajetória de vida. Essa diversidade precisa ser respeitada. Mas há algo que nos une: basta ser idoso para merecer cuidado, atenção, proteção, respeito e empatia. Afinal, o envelhecimento é o único destino comum a todos aqueles que têm o privilégio de viver por muitos anos.


Não estamos fazendo hora extra. Também não ocupamos espaços que pertencem a outras gerações. Estamos vivendo uma nova etapa da vida, com os desafios e aprendizados próprios desse momento.


Existe uma grande ironia nisso tudo: depois de uma vida inteira aprendendo, trabalhando, criando filhos, enfrentando desafios e acumulando experiências, descobrimos que também precisamos aprender a ser idosos.


Somos, de certa forma, como uma criança que aprende a dar os primeiros passos. Como um jovem que aprende a assumir responsabilidades. Como uma mulher ou um homem que aprende a exercer novos papéis ao longo da vida. A diferença é que não somos crianças, nem adolescentes. Não estamos começando a viver. Estamos aprendendo a viver uma fase completamente nova, carregando conosco toda uma história.


Talvez por isso algumas pessoas confundam esse processo de adaptação com incapacidade. Muitas vezes somos tratados de forma infantilizada, com impaciência ou até com certa indelicadeza. Em outras ocasiões, somos vistos como alguém que já não acompanha mais, como se tivéssemos perdido nossa utilidade.


Mas não perdemos. Continuamos sonhando, fazendo planos, amando, sorrindo, aprendendo e tomando decisões. Continuamos sendo sujeitos da nossa própria história. E essa reflexão torna-se ainda mais importante quando falamos sobre dinheiro.


Autonomia financeira também é um direito


Existe uma tendência, muitas vezes dentro da própria família, de acreditar que, ao envelhecer, a pessoa perde automaticamente a capacidade de administrar seu patrimônio ou decidir sobre seus recursos financeiros.


Isso não é verdade.


Podemos, queremos e devemos participar das decisões sobre o destino do nosso dinheiro.


É claro que a tecnologia trouxe mudanças profundas. Ela facilitou muitos aspectos da vida, mas também exige novas formas de aprendizagem. Para muitos idosos, especialmente aqueles acima dos 70 anos, esse processo acontece em um ritmo diferente. E isso é absolutamente natural.


Durante décadas administramos contas, fizemos pagamentos, recebimentos, conferimos trocos, planejamos despesas e organizamos o orçamento familiar sem aplicativos, internet ou inteligência artificial. Nosso cérebro desenvolveu habilidades diferentes das exigidas atualmente.


Hoje, uma criança de dois ou três anos desliza os dedos sobre uma tela com enorme facilidade. Isso não significa que seja mais inteligente. Significa apenas que nasceu em outro tempo, cercada por uma tecnologia que nós precisamos aprender já na maturidade.


O que precisamos não é de substituição, mas de apoio.


Não de tutela, mas de parceria.

Não de alguém que decida por nós, mas de alguém que caminhe conosco.


Infelizmente, quando o assunto é dinheiro, nem sempre é isso que acontece.


Violência patrimonial contra idosos: um problema silencioso


Após a pandemia da COVID-19, ficou ainda mais evidente o crescimento das fraudes financeiras contra idosos. Mas existe uma violência ainda mais silenciosa e dolorosa: aquela praticada dentro da própria família.


Não me refiro apenas aos golpes aplicados por criminosos ou instituições financeiras. Refiro-me às situações em que filhos, netos, irmãos ou outros familiares passam a controlar, influenciar ou decidir sobre o dinheiro do idoso sem seu consentimento ou sem respeitar sua vontade.


Essa é uma forma de violência patrimonial e financeira que muitas vezes permanece invisível, justamente porque acontece entre pessoas em quem o idoso deposita confiança.


Fala-se muito sobre garantir autonomia, qualidade de vida e liberdade para envelhecer. No entanto, quando o assunto é dinheiro, parece que todos se sentem autorizados a opinar, decidir ou interferir, muitas vezes ignorando a vontade daquele que construiu esse patrimônio ao longo da vida.


Não estou falando dos idosos em situação de incapacidade ou vulnerabilidade extrema, que realmente necessitam de proteção legal. Refiro-me ao idoso plenamente capaz, que continua lúcido e apto para decidir sobre sua própria vida financeira.


Educação Financeira Comportamental fortalece a autonomia


É justamente nesse ponto que a Educação Financeira Comportamental pode oferecer uma importante contribuição.


Ela nos ensina que dinheiro não é apenas um recurso econômico. Ele também representa autonomia, identidade, liberdade, pertencimento e dignidade.


Respeitar a decisão financeira de um idoso — ainda que possamos orientá-lo ou aconselhá-lo — é reconhecer sua história, sua autonomia e seu direito de continuar sendo protagonista da própria vida.


Precisamos construir uma cultura em que orientar não signifique controlar; proteger não signifique retirar a autonomia; cuidar não signifique decidir pelo outro.


Envelhecer não elimina direitos. Pelo contrário, exige ainda mais respeito.


Talvez essa seja uma das maiores lições da Educação Financeira Comportamental: compreender que cuidar do dinheiro de uma pessoa nunca pode significar retirar dela o direito de decidir sobre a própria vida.


Porque, antes de sermos idosos, somos pessoas.


E pessoas merecem respeito em todas as fases da vida.


Sobre a Autora:


Janina Jacino é educadora financeira comportamental, contadora e especialista em Neurociência da Aprendizagem e Gestão Estratégica de Negócios e associada da APOEF.

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