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Selic menor não significa dinheiro barato: o desafio brasileiro vai além dos juros

há 2 horas
6 min de leitura
Ilustração sobre a redução da Selic e seus impactos na economia brasileira, destacando o Banco Central, a queda dos juros, o endividamento das famílias e empresas, a poupança nacional, o investimento produtivo e o crescimento do PIB.
A redução da taxa Selic pode aliviar o custo do dinheiro e estimular a atividade econômica, mas seus efeitos dependem de fatores como endividamento, inadimplência, poupança nacional e investimento produtivo. O desafio brasileiro vai além da política monetária.

Coluna Ricardo São Pedro


Publicado em 02/11/2026 / 11:35

Por Ricardo São Pedro (@radiumweb)


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A discussão sobre os juros no Brasil ganhou um novo capítulo com a proposta apresentada pelo economista André Lara Resende para reduzir a taxa Selic de 13,75% para aproximadamente 7,5% ao ano, ao longo de 12 meses. A ideia, que vem ocupando espaço no debate econômico e político, vai além de uma simples redução da taxa básica: propõe uma nova forma de coordenação entre as políticas fiscal e monetária, com metas conjuntas para um horizonte de quatro a cinco anos.


O argumento central de Lara Resende é que o Brasil convive com uma distorção importante: o custo dos juros da dívida pública tornou-se um dos principais fatores de pressão sobre as contas do governo. Na interpretação do economista, reduzir esse custo seria uma condição relevante para interromper a trajetória de crescimento do endividamento público e criar condições para uma expansão econômica mais consistente.


A proposta merece ser examinada. Afinal, o pagamento de juros da dívida representa um custo expressivo para o Estado brasileiro. Entretanto, existe uma questão que precisa ser incorporada a essa discussão: reduzir a Selic não significa, necessariamente, reduzir na mesma proporção o custo do dinheiro para famílias e empresas.


E talvez seja justamente aí que esteja um dos maiores desafios da economia brasileira.


O problema não está apenas na taxa de juros


A taxa Selic é o principal instrumento de política monetária do Banco Central. Sua função é influenciar as condições financeiras da economia e contribuir para que a inflação permaneça próxima da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional.


Quando a Selic aumenta, o custo de diversas operações financeiras tende a subir. O crédito fica mais caro, o consumo financiado perde força e os investimentos que dependem de financiamento podem ser adiados. Em contrapartida, a remuneração das aplicações financeiras pós-fixadas tende a aumentar.


O problema brasileiro, entretanto, não se resume ao nível da taxa básica.


O custo do crédito para o consumidor ou para uma empresa é composto por diversos fatores: custo de captação das instituições financeiras, inadimplência, despesas administrativas, tributação, exigências de capital, custos regulatórios e margem financeira.


É por isso que uma redução da Selic pode não produzir uma redução proporcional nos juros cobrados pelos bancos.


Em setembro de 2026, por exemplo, o spread médio do crédito livre alcançou 35,5 pontos percentuais, segundo dados do Banco Central. No mesmo período, a inadimplência das operações de crédito livre chegou a 6,6%.


Temos, portanto, uma questão estrutural: mesmo que o custo de captação diminua, a manutenção de elevados níveis de inadimplência e de risco pode limitar o repasse dessa redução ao tomador final.


Famílias endividadas, empresas pressionadas e pouca capacidade de poupança


Os indicadores de endividamento das famílias ajudam a compreender a dimensão do problema.


Em agosto de 2026, o endividamento das famílias brasileiras atingiu 50,1% da renda anual acumulada. O comprometimento da renda com o serviço das dívidas chegou a 29%.


Isso significa que uma parcela expressiva da renda das famílias já está comprometida com o pagamento de obrigações financeiras.


O resultado é uma redução da capacidade de consumir sem recorrer ao crédito e, principalmente, de formar reservas financeiras.


Nas empresas, a situação também merece atenção. O crédito ampliado destinado ao setor empresarial alcançou R$ 7,3 trilhões em setembro de 2026, equivalentes a 54,4% do PIB. A inadimplência das operações de crédito com pessoas jurídicas estava em 3,3%.


Esse ambiente exige cautela. Empresas excessivamente endividadas podem adiar investimentos, reduzir contratações e direcionar parte relevante de sua geração de caixa para o pagamento de juros.


Temos, assim, um ciclo que pode se retroalimentar: juros elevados pressionam o orçamento de famílias e empresas; o comprometimento da renda dificulta a formação de poupança; a inadimplência aumenta o risco de crédito; e os bancos, diante desse risco, mantêm spreads elevados ou restringem a concessão de empréstimos.


O resultado é uma economia na qual o crédito permanece caro, mesmo quando existe demanda por financiamento.


A poupança nacional: um componente frequentemente esquecido


Existe outro aspecto que precisa receber maior atenção no debate econômico: a capacidade de poupança da economia brasileira.


Em 2025, segundo o IBGE, a taxa de poupança nacional foi de 14,4% do PIB, enquanto a taxa de investimento ficou em 16,8%.


A diferença indica que o investimento realizado no país superou a poupança nacional disponível, exigindo financiamento complementar, inclusive por meio da poupança externa.


Essa relação merece atenção porque o desenvolvimento econômico depende da capacidade de transformar recursos não consumidos no presente em investimentos que ampliem a produção futura.


É importante esclarecer que poupança nacional não significa simplesmente dinheiro depositado nos bancos. Ela engloba a poupança das famílias, das empresas e do governo. Os depósitos bancários e outros instrumentos financeiros são mecanismos pelos quais parte desses recursos pode ser intermediada e direcionada ao financiamento.


Além disso, os bancos também criam depósitos quando concedem empréstimos. Portanto, não existe uma relação mecânica segundo a qual cada real depositado se transforma em um real emprestado.


Ainda assim, uma economia com maior capacidade de poupança e fontes estáveis de financiamento tende a apresentar melhores condições para sustentar investimentos de longo prazo, desde que existam projetos produtivos, instituições eficientes e um ambiente econômico previsível.


O Brasil precisa ampliar essa capacidade.


Não basta discutir quanto custa tomar dinheiro emprestado. Precisamos discutir quanto conseguimos acumular, como esses recursos são direcionados e quanto conseguimos transformar em capacidade produtiva.


Reduzir a Selic é importante, mas não resolve tudo


A proposta de Lara Resende procura enfrentar um problema relevante: o peso dos juros sobre a dívida pública.


Seu argumento é que a redução da taxa básica poderia diminuir progressivamente o custo de financiamento do Estado, melhorando o resultado nominal das contas públicas e criando espaço para uma trajetória mais sustentável da dívida.


Entretanto, essa estratégia depende de condições importantes.


Se a redução dos juros for acompanhada de perda de confiança, desvalorização cambial e aumento das expectativas de inflação, parte dos benefícios poderá ser anulada. Os investidores poderão exigir taxas maiores nos títulos de longo prazo, elevando o custo das novas emissões da dívida pública.


Também é necessário considerar que o Banco Central possui responsabilidades institucionais definidas pela Lei Complementar nº 179/2021. A proposta de criar um Conselho Fiscal e Monetário Nacional, com metas conjuntas para as políticas fiscal e monetária, envolve uma mudança relevante no arranjo institucional vigente.


Coordenação entre as políticas econômicas pode ser importante, mas precisa preservar a credibilidade do controle da inflação e a autonomia técnica da autoridade monetária.


Outro ponto fundamental é que a redução da Selic não elimina a necessidade de equilíbrio fiscal. O resultado primário continua sendo determinante para a sustentabilidade da dívida pública.


O verdadeiro desafio: transformar crédito em investimento produtivo


Uma economia pode experimentar redução dos juros sem necessariamente ampliar sua capacidade produtiva.


Se o crédito mais barato for direcionado predominantemente ao consumo financiado e à rolagem de dívidas anteriores, seus efeitos sobre a produção e a produtividade poderão ser limitados.


Por outro lado, quando o financiamento viabiliza a construção de fábricas, a modernização de equipamentos, a expansão da infraestrutura, a inovação tecnológica e o desenvolvimento de novos negócios, o crédito contribui para ampliar a capacidade de geração de riqueza.


É nesse ponto que precisamos conectar política monetária, política fiscal e desenvolvimento produtivo.


O país precisa recuperar a capacidade financeira das famílias, melhorar as condições de financiamento das empresas, reduzir estruturalmente a inadimplência, ampliar a poupança nacional e desenvolver fontes de financiamento de longo prazo.


Também precisa melhorar a qualidade do gasto público e criar condições para que o investimento privado encontre segurança jurídica, previsibilidade e oportunidades de retorno.


Não se trata de escolher entre juros baixos e responsabilidade fiscal. Trata-se de construir um ambiente no qual a redução sustentável dos juros seja consequência de uma economia mais equilibrada, produtiva e capaz de financiar seu próprio desenvolvimento.


O Brasil precisa de mais do que dinheiro barato


A discussão levantada por André Lara Resende oferece uma oportunidade para repensarmos os fundamentos da política econômica brasileira. O custo da dívida pública é relevante, assim como os efeitos de juros elevados sobre o investimento e a atividade econômica.


Mas seria um equívoco imaginar que a simples redução da Selic resolveria os problemas estruturais do crédito nacional.


O Brasil precisa de uma economia na qual as famílias consigam pagar suas dívidas e formar reservas, as empresas possam financiar sua expansão sem comprometer excessivamente sua geração de caixa e o Estado consiga financiar suas atividades sem pressionar continuamente a poupança disponível.


Precisamos de mais poupança, mais investimento produtivo, maior produtividade e melhores condições de financiamento.


A questão central, portanto, não é apenas quanto custa o dinheiro no Brasil. É por que temos tanta dificuldade de transformar renda em poupança, poupança em investimento e investimento em desenvolvimento.


Reduzir os juros pode ser parte do caminho. Construir uma economia capaz de gerar, acumular e transformar riqueza é o verdadeiro desafio.


Sobre o Autor:


Ricardo São Pedro é engenheiro civil com MBA em Planejamento Financeiro Pessoal e Familiar. Atua como educador e planejador financeiro, promovendo a educação financeira como instrumento de cidadania e transformação social. Idealizador da web rádio Radium, produz e apresenta programas que integram finanças, bem-estar e temas relevantes para a vida dos brasileiros. Também assina artigos no blog da rádio e participa de projetos voltados à inclusão e à segurança financeira das famílias.

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