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A idade, sozinha, explica muito pouco

há 4 horas
2 min de leitura

Envelhecer não acontece da mesma forma para todos. Quando falamos de dinheiro, é preciso olhar também para acesso, território, renda, responsabilidades familiares e oportunidades reais de escolha.


Pessoa idosa em ambiente urbano representando diferentes condições de envelhecimento, acesso, renda, território e autonomia nas decisões financeiras.
Envelhecer não acontece da mesma forma para todos. Quando falamos de dinheiro, compreender renda, acesso, território e responsabilidades familiares também é essencial para falar de autonomia financeira.

Publicado em 01/10/2026 / 18:00

Por Ismael Mello (@financassenior) (@apoefoficial)


Ouça o Artigo

Durante o Simpósio Velhices Invisíveis, realizado pelo Programa USP60+, fui anotando algumas palavras no meu caderno: acesso, deslocamento, participação e protagonismo.


As discussões passaram por periferia, raça, povos indígenas, população LGBTQIA+ e pessoas com deficiência. Quando o encontro terminou, voltei a uma questão importante: usamos a idade para reunir pessoas em um mesmo grupo, mas ela não conta em quais condições cada uma chegou à velhice.


Isso faz diferença quando o assunto é dinheiro.


O Censo de 2022 registrou 32,1 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais. Estudo da FGV EAESP mostra que quase 20 milhões dos 72 milhões de domicílios do país tinham uma pessoa 60+ como principal responsável. Mais de 5,6 milhões de pessoas idosas viviam sozinhas.


Esses dados afastam a ideia de que a pessoa mais velha ocupa apenas uma posição de dependência. Em muitas famílias, é a renda dela que mantém a casa. Mas reconhecer esse papel econômico não significa dizer que todas envelhecem com segurança.


Quem vive longe dos serviços, perde horas no transporte ou não encontra atendimento acessível decide dentro dessas limitações. Quem sustenta filhos e netos não lida com a própria renda da mesma forma que alguém responsável apenas por si. Ter celular e usar WhatsApp também não significa compreender um contrato, identificar uma fraude ou resolver um problema no aplicativo bancário.


É nesse ponto que a educação financeira precisa rever algumas respostas automáticas.


Dizer para uma pessoa poupar, investir ou organizar melhor os gastos podem estar tecnicamente correto e, ainda assim, não alcançar o problema que ela enfrenta. Antes da orientação, é necessário compreender a origem da renda, as pessoas que dependem dela, o território, o acesso aos serviços e as responsabilidades acumuladas.


A responsabilidade individual continua existindo, porque decisões produzem consequências. O ponto é que não podemos falar em autonomia ignorando que, em muitas situações, as alternativas já chegam reduzidas pela falta de acesso.


Esse cuidado também vale para empresas, governos e instituições financeiras. Não basta desenvolver um produto para o público 60+ e considerá-lo inclusivo. É preciso saber para quais pessoas ele funciona, quem consegue utilizá-lo e quem continuará do lado de fora.


O Brasil está envelhecendo, mas os brasileiros não envelhecem nas mesmas condições. A idade ajuda a contar a população. Mas, para compreender uma decisão econômica, é preciso olhar também para acesso, renda, território, responsabilidades familiares e oportunidades reais de escolha.


Fontes consultadas:


  • IBGE. Censo Demográfico 2022: população por idade e sexo.

  • FGV EAESP e Instituto Itaú Viver Mais. Projeto Longevidade e Economia Brasileira. 2025.

  • Universidade de São Paulo, Programa USP60+. Simpósio Velhices Invisíveis. 2026.


Sobre o Autor:


Ismael Mello é fundador da Finanças Sênior e educador do comportamento financeiro pessoal, com atuação em Educação para Decisão Econômica na Longevidade. Associado da APOEF.

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