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82% das famílias estão endividadas: o que esse recorde ensina sobre educação financeira no Brasil

O endividamento das famílias chegou a 82% em julho, recorde da série histórica. O que esse dado revela sobre crédito, orçamento e educação financeira?


Infográfico sobre o endividamento das famílias brasileiras, destacando que 82% das famílias estavam endividadas em julho de 2026 e 29,8% estavam inadimplentes, com informações sobre a diferença entre endividamento e inadimplência, comprometimento da renda, uso do cartão de crédito, Selic e hábitos de educação financeira.
O endividamento das famílias alcançou 82% em julho de 2026, o maior nível da série histórica da Peic iniciada em 2015. O dado chama atenção, mas também exige uma distinção importante: estar endividado não significa necessariamente estar inadimplente. O verdadeiro desafio está em compreender quanto da renda futura já está comprometido e como o crédito pode afetar a liberdade financeira das famílias.

Publicado em 14/08/2026 / 18:00

Por Ricardo São Pedro (@radiumweb)


Ouça o Artigo

Existe um número que deveria estar presente em qualquer conversa séria sobre educação financeira no Brasil: 82%.


Esse foi o percentual de famílias brasileiras que declararam possuir algum tipo de dívida em julho de 2026, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio. É o maior nível da série histórica, iniciada em 2015. Ao mesmo tempo, a parcela de famílias inadimplentes recuou para 29,8%.


A combinação parece contraditória.


Mais famílias estão endividadas, mas uma parcela menor está inadimplente.


Na verdade, ela revela uma distinção fundamental: ter uma dívida não significa necessariamente estar em uma situação financeira insustentável.


Uma família pode ter financiamento imobiliário, financiamento de veículo ou compras parceladas e pagar tudo em dia.


O verdadeiro alerta está em outra pergunta:


Quanto da renda futura já está comprometido?


É aí que o recorde de endividamento deixa de ser apenas uma estatística econômica e passa a ser uma questão de educação financeira.


O problema não é simplesmente ter dívida


Uma sociedade moderna utiliza crédito.


Financiamentos permitem antecipar a aquisição de bens de alto valor. O parcelamento pode facilitar o planejamento de uma compra. O crédito também pode financiar atividades produtivas.


Portanto, defender uma vida financeira saudável não significa defender uma vida sem dívidas.


O problema começa quando o crédito deixa de ser uma ferramenta de planejamento e passa a funcionar como uma extensão permanente da renda.


A diferença é enorme.


Quando alguém toma crédito para realizar uma decisão planejada, existe uma relação entre presente e futuro.


Quando alguém toma crédito porque a renda do mês não é suficiente para pagar as despesas correntes, o futuro começa a ser utilizado para sustentar o presente.


E isso pode criar um ciclo difícil de interromper.


Endividamento e inadimplência não são a mesma coisa


Esse é um conceito que deveria estar entre os primeiros ensinamentos de qualquer programa de educação financeira.


Endividamento significa possuir compromissos financeiros.

Inadimplência significa não conseguir cumprir uma obrigação no prazo.


Os dados de julho mostram justamente essa diferença.


Enquanto o endividamento alcançou 82% das famílias, a inadimplência ficou em 29,8%.


Isso significa que uma parcela significativa das famílias possui dívidas e consegue pagá-las.


Mas o recorde ainda merece atenção.


Quanto maior o volume de compromissos assumidos, menor tende a ser a margem de segurança do orçamento.


A renda futura pode estar sendo gasta hoje


Imagine uma família que recebe R$ 5 mil por mês.


Se R$ 1.000 já estão comprometidos com parcelas, esse dinheiro não está mais disponível para novas decisões.


Se outros R$ 2.500 são destinados às despesas essenciais, restam R$ 1.500 para todo o restante.


Se uma nova compra parcelada acrescentar R$ 500 mensais, a renda livre cai para R$ 1.000.


O problema não é apenas o valor da nova compra.


É o fato de que ela ocupou espaço no orçamento dos próximos meses.


Essa é uma das ideias mais importantes do planejamento financeiro:


Uma parcela pequena hoje pode ser uma grande redução da liberdade financeira amanhã.

A queda da Selic não resolve automaticamente o problema


O cenário atual acrescenta uma camada interessante à discussão.


O Banco Central reduziu a Selic para 14% ao ano na reunião de 4 e 5 de agosto, no quarto corte consecutivo, segundo informações divulgadas após a decisão. A autoridade monetária, porém, manteve cautela sobre os próximos passos.


É uma mudança importante.


Mas não significa que o crédito para as famílias ficará barato imediatamente.


A taxa básica influencia o custo do dinheiro na economia, mas as taxas cobradas dos consumidores dependem também do risco de crédito, do prazo, das garantias, dos custos das instituições e do tipo de operação.


Por isso, a pergunta correta não é apenas:


"A Selic caiu?"


É:


"Quanto custa efetivamente a dívida que estou assumindo?"


O cartão de crédito não aumenta a renda


Talvez essa seja uma das lições mais simples e mais difíceis de colocar em prática.

O limite do cartão é crédito.


Não é salário.


Se uma pessoa recebe R$ 3 mil e possui R$ 8 mil de limite, sua renda continua sendo R$ 3 mil.

O limite apenas permite antecipar consumo.


Quando essa diferença deixa de ser percebida, o orçamento começa a perder sua referência.

A compra parece caber porque a parcela cabe.


Mas várias parcelas podem caber individualmente e, juntas, destruir a capacidade de poupança da família.


O orçamento precisa mostrar o que ainda não aconteceu


Grande parte das famílias organiza o orçamento olhando para o passado.


Quanto gastamos no mês passado?


Quanto pagamos de supermercado?


Quanto veio a conta de energia?


Essas informações são importantes.


Mas o planejamento financeiro precisa olhar também para frente.


Quanto da renda dos próximos seis meses já está comprometido?

Quantas parcelas ainda faltam?

O que acontece se surgir uma despesa inesperada?

Existe alguma reserva?


Essas perguntas transformam uma simples planilha de gastos em uma ferramenta de planejamento.


O recorde de endividamento também é um problema de comportamento


Seria fácil atribuir tudo aos juros altos ou à inflação.


Eles certamente influenciam.


Mas não explicam tudo.


A decisão financeira acontece dentro de um ambiente psicológico.


Promoções criam sensação de oportunidade.

Parcelas pequenas reduzem a percepção do preço total.

O crédito pré-aprovado transmite sensação de disponibilidade.

O consumo imediato produz satisfação.

O pagamento fica para depois.


É justamente nesse espaço entre desejo presente e consequência futura que a educação financeira precisa atuar.


Não para dizer às pessoas que elas não podem consumir.


Mas para ajudá-las a compreender o preço das próprias escolhas.


Educação financeira não deve ensinar apenas a evitar dívidas


Essa talvez seja uma das maiores mudanças que precisamos fazer.


É comum ensinar:


"Não se endivide."


Mas isso é insuficiente.


É preciso ensinar:


Como avaliar uma dívida?

Como comparar o custo de diferentes créditos?

Como identificar o custo efetivo de uma operação?

Como saber se uma parcela cabe realmente no orçamento?

Como priorizar dívidas quando já existem várias?

Como recuperar margem financeira?


Educação financeira não deve preparar apenas para evitar problemas.


Também precisa preparar para enfrentá-los.


O objetivo não é ter mais crédito. É ter mais liberdade


Existe uma ironia no recorde atual.


Uma família pode ter acesso a mais crédito e, ao mesmo tempo, possuir menos liberdade financeira.


O crédito amplia o poder de compra no presente.


Mas uma dívida reduz o poder de escolha no futuro.


Quanto maior a parcela da renda já comprometida, menor a capacidade de reagir a uma emergência, aproveitar uma oportunidade ou simplesmente atravessar um mês difícil.


Por isso, o verdadeiro indicador de saúde financeira não é o tamanho do limite disponível.


É a margem de liberdade existente depois de cumprir as obrigações.


O que fazer quando os juros começarem a cair?


A resposta mais óbvia seria: tomar mais crédito.


Talvez seja justamente a resposta errada.


Um ambiente de juros menores pode representar uma oportunidade para reduzir o custo de dívidas existentes, reorganizar compromissos e recuperar capacidade de poupança.


Se uma família economiza R$ 300 por mês após reorganizar suas dívidas, esse valor não precisa necessariamente virar consumo.


Pode se transformar em reserva.


Depois, em patrimônio.


Essa é a diferença entre utilizar uma melhora econômica para consumir mais e utilizá-la para ficar financeiramente mais forte.


O recorde deveria mudar a maneira como ensinamos educação financeira


O dado de 82% deveria provocar uma reflexão mais profunda.


Talvez educação financeira não deva começar ensinando sobre investimentos.


Talvez deva começar ensinando sobre escolhas.


Antes de perguntar qual investimento comprar, precisamos aprender a perguntar:


Por que estou comprando?

Preciso disso agora?

Quanto vai custar no total?

Essa decisão compromete meu futuro?

O que deixarei de fazer por causa dessa parcela?


Esse tipo de pergunta forma um cidadão financeiramente mais autônomo.


A verdadeira riqueza é preservar a capacidade de escolher


O Brasil pode comemorar uma eventual queda dos juros.

Pode comemorar uma inflação mais comportada.

Pode comemorar aumento da renda e do emprego.


Tudo isso importa.


Mas existe um indicador silencioso que merece igual atenção:


a quantidade de renda que permanece livre depois que todas as obrigações são pagas.


É essa margem que permite construir reserva.

Investir.

Planejar.

Enfrentar imprevistos.

Realizar sonhos.

E, principalmente, escolher.


O recorde de endividamento das famílias brasileiras não deveria ser interpretado apenas como um problema de crédito.


Ele deveria ser entendido como um chamado à educação financeira.


Porque uma sociedade financeiramente educada não é aquela em que ninguém possui dívidas.


É aquela em que as pessoas compreendem o custo das suas decisões e conseguem utilizar o crédito sem entregar ao presente uma parcela excessiva do próprio futuro.


Infográfico


Infográfico em português sobre endividamento no Brasil: casal preocupado com contas, porquinho, mapa do Brasil e texto sobre educação financeira

Perguntas frequentes (FAQ)


O que significa dizer que 82% das famílias estão endividadas?

Significa que 82% dos lares pesquisados declararam possuir algum tipo de dívida. É o maior percentual da série histórica da Peic, iniciada em 2015.

Não. Endividamento e inadimplência são conceitos diferentes. Em julho, a inadimplência ficou em 29,8%, segundo a Peic.

Não. Uma dívida pode ser planejada e compatível com a renda. O problema está no comprometimento excessivo do orçamento ou na utilização recorrente de crédito para cobrir despesas que a renda não consegue sustentar.

Não automaticamente. A Selic influencia o ambiente de crédito, mas as taxas efetivamente cobradas das famílias dependem de diversos outros fatores. Além disso, dívidas já contratadas continuam sujeitas às condições estabelecidas nos respectivos contratos.

O primeiro passo é conhecer exatamente a situação: listar dívidas, parcelas, taxas, prazos e compromissos mensais. Sem esse diagnóstico, qualquer tentativa de reorganização corre o risco de ser apenas temporária.

Sobre o autor:


Ricardo São Pedro é engenheiro civil, educador financeiro e planejador financeiro. Atua na promoção da educação financeira e da cidadania por meio de artigos, palestras, programas de rádio e projetos de comunicação.


É cofundador e apresentador da Radium, onde produz conteúdos sobre economia, finanças, gestão pública e desenvolvimento humano.

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