20 milhões de brasileiros em endividamento de risco: quando a dívida deixa de ser administrável

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Publicado em 28/10/2026 / 20:05
Por Ricardo São Pedro (@radiumweb)
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Ter dívidas não significa, necessariamente, enfrentar problemas financeiros. Um financiamento imobiliário ou as parcelas de um veículo, por exemplo, podem fazer parte de um planejamento saudável. O alerta surge quando o pagamento dos compromissos começa a comprometer a capacidade de manter as despesas essenciais e lidar com imprevistos.
Esse é o cenário que preocupa o Banco Central. Em junho de 2026, 20,3 milhões de pessoas estavam em situação de endividamento de risco no Brasil, número 75% superior ao registrado cinco anos antes. O contingente correspondia a 17% dos devedores do Sistema Financeiro Nacional. Fonte: Agência Brasil.
Endividamento não é o mesmo que inadimplência
Uma pessoa endividada possui compromissos financeiros a pagar. Já a inadimplência ocorre quando uma obrigação vence sem ser quitada. O endividamento de risco vai além dessas duas situações: indica uma condição de maior vulnerabilidade financeira, que pode existir mesmo antes de atrasos recorrentes.
Para identificar esse risco, o Banco Central considera critérios como atrasos superiores a 90 dias, comprometimento de mais da metade da renda com dívidas, uso simultâneo de modalidades de crédito de maior risco e renda residual abaixo da linha de pobreza. É necessário preencher pelo menos dois desses critérios.
Portanto, estar em dia com as parcelas não garante, por si só, tranquilidade financeira.
Quando as parcelas reduzem a liberdade de escolha
Imagine uma família que recebe R$ 3 mil por mês e compromete R$ 1.200 com empréstimos, cartão e outras prestações. Restam R$ 1.800 para moradia, alimentação, transporte, saúde e demais despesas.
Se surge um gasto inesperado, a família pode recorrer ao cartão ou contratar outro empréstimo. A nova dívida resolve a urgência imediata, mas reduz ainda mais a renda disponível nos meses seguintes. Forma-se, assim, um ciclo em que o crédito deixa de ser uma ferramenta de planejamento e passa a financiar a própria dificuldade de pagar as contas.
A situação exige atenção especial entre as famílias de menor renda. Segundo os dados divulgados pelo BC, o comprometimento da renda com dívidas chegou a 42% entre pessoas que recebem até dois salários mínimos.
Crédito fácil também exige cautela
Cartão de crédito, cheque especial e empréstimos pessoais podem oferecer soluções rápidas, mas seus custos variam bastante. Quando o consumidor considera apenas o valor da parcela, pode ignorar o custo efetivo total, o prazo e o impacto acumulado das obrigações sobre o orçamento.
O Banco Central anunciou medidas para ampliar a transparência, consolidar informações sobre dívidas e permitir o bloqueio de ofertas ativas de crédito. O Painel de Dívidas Consolidadas deverá ajudar o consumidor a visualizar compromissos, simular novas contratações e receber alertas de risco. Parte dessas regras terá implementação em 2027.
O sinal de alerta vem antes do atraso
Uma pergunta simples pode ajudar: depois de pagar todas as parcelas, ainda sobra dinheiro para viver, poupar e enfrentar imprevistos?
Se a resposta for não, talvez seja hora de rever despesas, interromper novas contratações e buscar alternativas de renegociação antes que a situação se agrave.
A educação financeira não consiste apenas em pagar dívidas em dia. Consiste também em preservar a capacidade de escolha. Afinal, uma pessoa não precisa estar inadimplente para estar financeiramente vulnerável.
Sobre o Autor:
Ricardo São Pedro é engenheiro civil com MBA em Planejamento Financeiro Pessoal e Familiar. Atua como educador e planejador financeiro, promovendo a educação financeira como instrumento de cidadania e transformação social. Idealizador da web rádio Radium, produz e apresenta programas que integram finanças, bem-estar e temas relevantes para a vida dos brasileiros. Também assina artigos no blog da rádio e participa de projetos voltados à inclusão e à segurança financeira das famílias.
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