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Violência financeira contra a mulher: o abuso que não deixa hematomas

Controlar o dinheiro, os recursos e a autonomia econômica pode ser uma forma de violência patrimonial reconhecida pela Lei Maria da Penha. Reconhecer é o primeiro passo para buscar ajuda.


Imagem ilustrativa sobre violência financeira contra a mulher, mostrando uma mulher em situação de controle simbólico por meio de cartões, dinheiro e documentos, enquanto outra representação feminina segue em direção a uma porta iluminada, simbolizando autonomia, liberdade e busca por apoio.
A violência financeira pode não deixar marcas no corpo, mas o controle do dinheiro, dos documentos e da autonomia econômica pode limitar escolhas e prender mulheres em situações de violência. Reconhecer é o primeiro passo para buscar apoio e reconstruir a liberdade.

Publicado em 28/08/2026 / 18:00

Por João Otair (@jaquemetzner) (@apoefoficial)


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Agosto é o mês de prevenção à violência contra a mulher. Ao fechar este mês, a conversa não é sobre os hematomas visíveis. Existe uma violência que não deixa marca no corpo, mas prende a mulher de forma tão eficiente quanto qualquer agressão física: a violência financeira. É quando há o controle do dinheiro, da conta bancária, da possibilidade de a mulher trabalhar, da renda ou de qualquer potencial de ganho. E é, muitas vezes, o que impede a denúncia, a separação e a fuga para um lugar seguro.


A Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) reconhece a violência patrimonial como uma das formas de violência doméstica e familiar contra a mulher. Ela pode acontecer quando o agressor retém documentos, controla a conta bancária, exige senhas, impede a mulher de trabalhar, destrói bens ou utiliza seu dinheiro sem consentimento. O Conselho Nacional de Justiça descreve essa face como uma das menos reconhecidas, mas uma das mais presentes na rotina das vítimas. Não se trata de “cuidado” com o dinheiro da casa, mas de uma forma de violência reconhecida pela legislação brasileira, que pode envolver diferentes condutas previstas no ordenamento jurídico.


Os números mostram a gravidade. Segundo o DataSenado, a dependência financeira aparece entre os fatores que podem dificultar a denúncia e o rompimento do ciclo de violência. A falta de renda também aparece como um importante impeditivo para que muitas mulheres consigam romper uma situação de agressão. E o desfecho mais trágico segue preocupante: o Brasil registrou 1.571 vítimas de feminicídio em 2025, o maior número desde a tipificação do crime. Nos primeiros sete meses de 2026, o Ministério da Justiça contabilizou 848 vítimas, uma queda de 3,2% na comparação com o mesmo período do ano anterior.


A ameaça é sempre a mesma e sempre eficaz: “Se você for embora, o que vai fazer sem dinheiro?” Essa frase, dita ou apenas implícita, é o que mantém muitas mulheres presas. Sem renda própria, conta bancária só dela e, em algumas situações, até mesmo sem documentos, ela não enxerga saída. E é exatamente essa ausência de saída que permite que a violência continue e, em muitos casos, evolua para a agressão física ou o feminicídio.


A violência financeira se soma a causas estruturais, históricas e culturais, como o machismo, o patriarcado e a desigualdade de gênero, que por muito tempo reservaram à mulher o espaço doméstico e a dependência econômica do homem.


A saída existe, mas não deve ser tratada como uma responsabilidade individual ou solitária da mulher. Romper um ciclo de violência pode exigir rede de apoio, segurança, proteção institucional, assistência jurídica, políticas públicas e oportunidades concretas de trabalho e geração de renda. Nesse processo, a autonomia financeira pode ampliar possibilidades e devolver parte do poder de escolha.


Para sair do ciclo, a mulher precisa também se reconhecer capaz de construir caminhos para sua própria sustentação. Isso pode acontecer por meio da qualificação, da geração de renda, do acesso a serviços financeiros que respeitem sua condição, da educação financeira e do conhecimento sobre estruturas que podem ajudá-la, como a construção gradual de uma reserva que devolva a ela maior capacidade de escolha.


Para a mulher que vive essa situação, os passos podem começar pequenos e crescer com o tempo, sempre respeitando sua segurança e suas condições. O primeiro é reconhecer a violência financeira como violência, e não como proteção ou cuidado, tomando consciência de que merece respeito e autonomia. O segundo é buscar apoio e informação: o Ligue 180 funciona 24 horas, é gratuito e sigiloso, orientando sobre direitos e canais de atendimento. Em situações de emergência ou risco iminente, o telefone indicado é o 190. Delegacias da Mulher, a Defensoria Pública e outros serviços da rede de proteção também podem oferecer acolhimento e orientação.


O terceiro é reconstruir a autonomia em etapas, quando isso puder ser feito com segurança: retomar documentos, buscar acesso aos próprios recursos, abrir uma conta própria, procurar qualificação profissional, acessar programas de geração de renda e construir gradualmente uma reserva financeira mínima. O quarto — e talvez um dos primeiros passos possíveis — é buscar conhecer melhor a educação financeira, para ampliar a capacidade de tomar decisões com mais segurança e reduzir situações de dependência e exploração.


A educação financeira, porém, não substitui a rede de proteção, o apoio jurídico, psicológico e social necessário em situações de violência. Ela pode ser uma ferramenta de fortalecimento da autonomia, mas a responsabilidade pela violência nunca é da vítima. A responsabilidade é sempre de quem agride e utiliza o controle, o medo e a dependência como instrumentos de poder.


O enfrentamento à violência não termina na denúncia. O Agosto Lilás tem o objetivo de trazer o assunto à tona, e fechamos este mês com essa reflexão. A proteção se fortalece quando a mulher tem condições reais de fazer escolhas, de buscar apoio e de decidir sobre sua própria vida. Ter autonomia financeira, juntamente com autonomia emocional e uma rede de proteção, significa ampliar a liberdade e a liberdade é uma condição essencial para que nenhuma pessoa permaneça submetida à violência.


Porque dinheiro não é apenas um recurso econômico. Ele também pode representar autonomia, dignidade e poder de decisão. Quando uma mulher é privada desses elementos por meio do controle e da violência, não estamos falando apenas de finanças. Estamos falando de liberdade.


Referências


  1. Ministério da Justiça e Segurança Pública. "Número de feminicídios cai no Brasil nos primeiros sete meses de 2026". Publicado em 21/8/2026. Autor institucional.

  2. CNN Brasil. "Brasil bate recorde de feminicídios pelo quarto ano seguido", com base no Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Publicado em 19/8/2026. Autor institucional, sem assinatura individual disponível.

  3. Senado Federal, Instituto DataSenado. "Dependência econômica da mulher agrava violência doméstica, dizem debatedoras". Publicado em 14/6/2023.


Eliane Jaqueline Debesaitis Metzner é Planejadora Financeira CFP®, vice-presidente da APOEF, Associação de Profissionais Orientadores e Educadores Financeiros. Mentora organizacional e formadora de profissionais para o mercado financeiro.

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