CRESCIMENTO ECONÔMICO BRASILEIRO 2023-2026: ANÁLISE TÉCNICA DO PIB DE 10%
- Ricardo São Pedro
- há 6 dias
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Publicado em 28/01/2026 / 21:00
Por Ricardo São Pedro (@radiumweb)
O crescimento econômico do Brasil entre 2023 e 2026 deverá registrar um avanço acumulado superior a 10% no PIB. Este artigo explica em detalhes o que esses números significam, quais mecanismos econômicos estão por trás desse crescimento e os desafios para a sustentabilidade econômica do país.
OS NÚMEROS DO PIB BRASILEIRO: PERÍODO 2023-2026
A projeção de crescimento do PIB acumulado se baseia em dados consolidados e estimativas de mercado para o período:
• 2023: 2,9% (dado oficial IBGE)
• 2024: aproximadamente 3,3% (estimativa consolidada)
• 2025: aproximadamente 2,3% (projeção Focus)
• 2026: aproximadamente 1,9% (projeção de mercado)
Esses números colocam o crescimento econômico brasileiro acima das expectativas iniciais para a década, mas levantam questões importantes sobre a natureza e qualidade desse crescimento.
CRESCIMENTO POR DEMANDA VS. CRESCIMENTO ESTRUTURAL: ENTENDA A DIFERENÇA
Para compreender a economia brasileira atual, é fundamental distinguir entre dois modelos de crescimento econômico:
1. Crescimento por Demanda (Baseado em Consumo)
Este modelo ocorre quando há aumento no poder de compra da população através de:
• Transferências de renda e programas sociais
• Aumentos do salário mínimo acima da inflação
• Antecipação de recursos (como precatórios)
• Ampliação do crédito ao consumidor
O setor de serviços e comércio responde rapidamente a esse estímulo, representando cerca de 70% do PIB brasileiro. No entanto, esse crescimento depende da continuidade dos estímulos fiscais.
2. Crescimento Estrutural (Baseado em Investimento)
O crescimento sustentável resulta de:
• Investimentos em infraestrutura logística
• Modernização do parque industrial
• Aumento da capacidade produtiva
• Inovação tecnológica e produtividade
Este tipo de crescimento é mais lento para se materializar, mas gera desenvolvimento econômico de longo prazo sem depender de estímulos contínuos.
HIATO DO PRODUTO: O QUE É E POR QUE IMPORTA PARA A INFLAÇÃO
Um dos principais indicadores econômicos para avaliar a saúde do crescimento é o hiato do produto, conceito raramente explicado ao público, mas essencial para entender a dinâmica atual da economia.
Hiato do produto é a diferença entre o nível de produção efetiva da economia e o seu produto potencial, definido como o nível sustentável de produção compatível com o uso normal de capital, trabalho e tecnologia, sem gerar pressões inflacionárias.
Como o Hiato Positivo Gera Inflação
Quando ocorre um hiato positivo no Brasil:
1. Demanda aquecida: A população tem mais renda e quer consumir mais produtos e serviços
2. Capacidade limitada: As fábricas, lojas e prestadores de serviços não conseguem expandir produção rapidamente
3. Pressão nos preços: Com mais compradores do que produtos disponíveis, os preços sobem naturalmente
4. Inflação de serviços: Setores que dependem de mão de obra (como alimentação fora do lar, serviços pessoais) sofrem pressão salarial
5. Resposta do Banco Central: Para controlar a inflação, a taxa Selic precisa subir, encarecendo o crédito
Entre 2024 e 2026, o Brasil operou com hiato do produto positivo, explicando por que a inflação de serviços se mostrou persistente mesmo com inflação de bens industrializados controlada.
FBCF: A TAXA DE INVESTIMENTO QUE DEFINE O FUTURO ECONÔMICO
A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) é um indicador pouco conhecido pelo público, mas fundamental: mede quanto o país investe em máquinas, equipamentos, construções e infraestrutura.
Por Que a FBCF É Importante
A taxa de investimento da economia determina:
• Capacidade futura de produção
• Competitividade internacional
• Geração de empregos qualificados
• Crescimento sustentável sem pressão inflacionária
O Desempenho da FBCF no Período 2023-2026
Durante o período analisado, a taxa de investimento brasileira permaneceu:
• Realizada: entre 17% e 18% do PIB
• Recomendada por especialistas: mínimo de 20% do PIB
• Países de crescimento acelerado: acima de 25% do PIB (como China e Coreia do Sul em seus períodos de expansão)
Essa diferença entre investimento real e necessário explica por que o crescimento brasileiro enfrenta gargalos de capacidade produtiva.
COMPARAÇÃO: CONSUMO VS. INVESTIMENTO NA ECONOMIA BRASILEIRA
A composição do PIB brasileiro no período mostra um desequilíbrio:
Componente da Demanda Agregada | Participação no PIB | Dinâmica no período 2023–2026 |
Consumo das famílias | ~65% a 70% | Crescimento significativo |
Investimento (FBCF) | ~17% a 18% | Crescimento modesto |
Gastos do governo | ~20% | Expansão controlada |
Exportações líquidas | Variável | Contribuição neutra |
Essa estrutura revela que o motor do crescimento foi predominantemente o consumo interno, enquanto o investimento produtivo não acompanhou o mesmo ritmo.
ASPECTOS POSITIVOS DO CRESCIMENTO ECONÔMICO 2023-2026
É importante reconhecer os benefícios do crescimento econômico registrado:
• Redução da pobreza: Programas de transferência de renda tiraram milhões de famílias da linha da pobreza
• Aquecimento do mercado interno: Setor de comércio e serviços registrou expansão consistente
• Geração de empregos: Taxa de desemprego atingiu mínimas históricas
• Formalização do trabalho: Aumento de vínculos formais de emprego
• Recuperação pós-pandemia: Economia superou os impactos da COVID-19
DESAFIOS ESTRUTURAIS DA ECONOMIA BRASILEIRA
Apesar dos avanços, os desafios econômicos do Brasil persistem:
1. Pressão Inflacionária Persistente
A inflação de serviços manteve-se acima da meta, especialmente em:
• Alimentação fora do domicílio
• Serviços pessoais
• Educação e saúde privada
• Transportes urbanos
2. Juros Elevados
Para controlar a inflação associada a um hiato do produto positivo, o Banco Central precisou manter a taxa Selic em patamares elevados. No entanto, esse movimento não decorre apenas da dinâmica inflacionária doméstica. O risco país também exerce papel relevante, ao exigir um prêmio adicional de retorno para que investidores mantenham recursos aplicados na economia brasileira.
Esse ambiente de juros elevados:
Encarece o crédito para empresas e famílias;
Reduz o investimento privado, especialmente em projetos de longo prazo;
Aumenta o custo da dívida pública, pressionando o resultado fiscal;
Limita a potência dos mecanismos de transmissão da política monetária sobre o crescimento econômico.
Ao elevar o prêmio de risco embutido nas taxas de juros, a percepção de fragilidade fiscal, incertezas institucionais e volatilidade externa restringe o espaço para uma redução mais rápida e consistente da Selic, mesmo em cenários de desaceleração da atividade.
3. Baixo Investimento em Capacidade Produtiva
A FBCF abaixo de 20% cria um círculo vicioso:
• Menos máquinas e equipamentos novos
• Produtividade estagnada
• Dificuldade em atender demanda sem pressionar preços
• Competitividade internacional comprometida
4. Dependência de Estímulos Fiscais
Um crescimento baseado em consumo estimulado requer:
• Gastos públicos contínuos
• Pressão sobre as contas públicas
• Risco de insustentabilidade fiscal
SUSTENTABILIDADE DO CRESCIMENTO: O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS
Economistas de diferentes correntes concordam que a sustentabilidade do crescimento brasileiro depende de equilibrar:
1. Manutenção da renda: Políticas sociais que protejam as famílias mais vulneráveis
2. Aumento dos investimentos: Criar ambiente favorável para FBCF crescer acima de 20% do PIB
3. Controle fiscal: Equilibrar contas públicas para evitar pressão inflacionária
4. Reformas estruturais: Melhorar ambiente de negócios, infraestrutura e educação
5. Produtividade: Investir em tecnologia, inovação e qualificação profissional
PERSPECTIVAS PARA O PRÓXIMO CICLO ECONÔMICO
Olhando para o futuro da economia brasileira pós-2026, alguns cenários se desenham:
Cenário 1: Ajuste com Desaceleração
Se os estímulos fiscais forem reduzidos sem que o investimento produtivo tenha aumentado, o país pode enfrentar:
• Desaceleração do PIB para próximo de 1% ao ano
• Inflação gradualmente controlada
• Queda dos juros de forma lenta
Cenário 2: Transição Para Crescimento Sustentável
Se houver aumento significativo da FBCF, o Brasil pode alcançar:
• Crescimento consistente de 2,5% a 3% ao ano
• Inflação controlada sem necessidade de juros muito altos
• Redução do hiato do produto
Cenário 3: Continuidade do Estímulo com Riscos
Manter estímulos sem aumentar capacidade produtiva pode resultar em:
• Inflação acima da meta persistente
• Juros estruturalmente elevados
• Deterioração fiscal
O SALDO DO CRESCIMENTO DE 10% NO PIB BRASILEIRO
Um crescimento acumulado de 10% em quatro anos é expressivo e trouxe benefícios reais para milhões de brasileiros. No entanto, a análise técnica revela que a composição desse crescimento, fortemente baseada em consumo com investimento produtivo limitado, levanta questões importantes sobre sua sustentabilidade.
O principal desafio para a economia brasileira no próximo ciclo, independente da gestão política, será equilibrar:
• Proteção social e renda das famílias
• Aumento robusto dos investimentos produtivos
• Controle inflacionário sem sufocar o crescimento
• Criação de condições para crescimento autossustentável
PARTICIPE DO DEBATE ECONÔMICO
Questões para reflexão:
• Como incentivar o investimento privado sem comprometer os ganhos sociais?
• Quais reformas estruturais são prioritárias para aumentar a produtividade?
• É possível equilibrar crescimento com estabilidade de preços no Brasil?
• Que papel o setor privado deve ter na expansão da capacidade produtiva?
Deixe seu comentário abaixo e compartilhe este artigo para que mais pessoas entendam os fundamentos do crescimento econômico brasileiro.
GLOSSÁRIO DE TERMOS ECONÔMICOS
PIB (Produto Interno Bruto): Soma de todos os bens e serviços produzidos em um país em determinado período.
Hiato do Produto: Diferença entre a produção efetiva e a capacidade máxima da economia.
FBCF (Formação Bruta de Capital Fixo): Investimentos em bens de capital (máquinas, equipamentos, construções) que aumentam a capacidade produtiva.
Taxa Selic: Taxa básica de juros da economia brasileira, definida pelo Banco Central.
Inflação de Serviços: Aumento de preços especificamente no setor de serviços, geralmente mais resistente que a inflação de bens.
Crescimento Estrutural: Expansão econômica baseada em aumento da capacidade produtiva, não apenas em estímulos temporários.
Ricardo São Pedro é engenheiro civil com MBA em Planejamento Financeiro Pessoal e Familiar. Atua como educador e planejador financeiro, promovendo a educação financeira como instrumento de cidadania e transformação social. Idealizador da web rádio Radium, produz e apresenta programas que integram finanças, bem-estar e temas relevantes para a vida dos brasileiros. Também assina artigos no blog da rádio e participa de projetos voltados à inclusão e à segurança financeira das famílias.
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