Selic mantida em 15%: Ata do Copom sinaliza primeiro corte em março de 2026
- Ricardo São Pedro

- 3 de fev.
- 6 min de leitura
Atualizado: há 2 dias

Publicado em 03/02/2026 / 16:00
Por Ricardo São Pedro (@radiumweb)
O Copom decidiu manter a taxa Selic em 15% ao ano na reunião de 27 e 28 de janeiro de 2026. A notícia mais importante, porém, está nas entrelinhas da Ata: o Banco Central sinalizou o primeiro corte de juros para a próxima reunião, em março. Mas por que os juros seguem tão altos? E o que esperar desse ciclo de queda? A seguir, explicamos tudo em linguagem simples, traduzindo o que está no documento oficial do Copom.
Copom mantém Selic em 15%: decisão cautelosa em cenário incerto
A Ata registra que o Copom decidiu manter a taxa básica de juros em 15,00% a.a. e considera que isso é compatível com a estratégia de fazer a inflação convergir para perto da meta dentro do horizonte relevante.
O Comitê também destaca que o cenário é de "elevada incerteza", o que exige cautela na condução da política monetária.
Em bom português: quando ainda há incerteza e a inflação não está totalmente "domada", o Banco Central prefere não arriscar — mantém o remédio forte (juros altos) por mais tempo para garantir que o problema (inflação) continue cedendo.
Por que a Selic continua em 15%? 5 razões que explicam
1. A inflação melhorou, mas ainda não "virou a página"
A Ata diz que, nas divulgações mais recentes, a inflação cheia e medidas subjacentes (núcleos) continuaram arrefecendo, porém seguem acima da meta.
Ou seja: está melhorando, sim — mas ainda não é uma vitória garantida.
Além disso, o Copom afirma que a queda recente da inflação foi ajudada por câmbio mais apreciado e por um comportamento mais benigno das commodities, o que reduziu pressões em itens como bens industrializados e alimentos.
Tradução para o dia a dia: alguns preços cederam porque dólar e commodities ajudaram. Mas isso pode mudar. Por isso, o BC não quer "comemorar cedo demais".
2. O "osso duro" da inflação: serviços e mercado de trabalho
A Ata reconhece que a inflação de serviços apresentou algum arrefecimento, mas segue mais resiliente, reagindo a um mercado de trabalho ainda dinâmico e a uma atividade que desacelera de forma gradual.
E aqui entra um ponto decisivo: o Copom destaca que o desemprego tem se mantido em patamares historicamente baixos e que os rendimentos reais médios seguem subindo acima do crescimento da produtividade do trabalho.
Por que isso importa?
Quando o emprego está forte e os salários reais crescem, as famílias consomem mais e vários serviços (aluguel, plano, escola, salão, restaurantes) tendem a resistir mais à queda de preços. É uma inflação mais "teimosa". A Ata sinaliza exatamente esse incômodo: serviços ainda não estão cedendo no ritmo ideal.
3. Expectativas de inflação acima da meta (e isso pesa muito)
Outro ponto central: as expectativas de inflação continuam acima da meta. A Ata registra que o Focus aponta 4,0% para 2026 e 3,8% para 2027 — níveis acima do objetivo.
Mesmo com alguma melhora, o Comitê reforça que as expectativas, medidas por diferentes instrumentos, seguem acima da meta em todos os horizontes.
E há uma frase bem forte na Ata: em um ambiente de expectativas desancoradas, "exige-se uma restrição monetária maior e por mais tempo do que outrora seria apropriado."
Traduzindo: se empresas e consumidores acreditam que a inflação vai seguir alta, eles ajustam preços e salários já pensando nisso — e aí a inflação fica mais difícil de cair. Por isso, o Copom justifica manter juros altos até as expectativas voltarem a "se comportar".
4. Política fiscal e risco: o que mexe com os juros "lá na frente"
A Ata traz um recado importante sobre política fiscal. Ela diz que o fiscal tem:
um efeito de curto prazo (estimula demanda), e
uma dimensão estrutural (impacta percepção de sustentabilidade da dívida e o prêmio a termo da curva de juros).
E o Comitê alerta que menos reformas, menos disciplina fiscal, aumento de crédito direcionado e incertezas sobre estabilização da dívida podem elevar a taxa de juros neutra e reduzir a potência da política monetária, tornando a desinflação mais custosa em termos de atividade.
No dia a dia: se o mercado desconfia do fiscal, exige juros maiores para emprestar ao governo. Isso "contamina" os juros de toda a economia. O Copom reforça que políticas precisam ser previsíveis, críveis e anticíclicas, e que fiscal e monetária devem ser harmoniosas.
5. Cenário externo ainda incerto
O Comitê também aponta que o cenário externo segue incerto, por conta de EUA e reflexos nas condições financeiras globais, e menciona tensão geopolítica — fatores que pedem cautela para emergentes.
Ao mesmo tempo, diz que as condições recentes sugerem algum arrefecimento na incerteza, com commodities contidas e condições financeiras favoráveis, mas ainda monitoradas.
Tradução: o mundo ainda pode trazer surpresa. Quando o mundo está instável, é comum o BC preferir não acelerar cortes.
Projeções de inflação: o que o cenário do Copom mostra
No cenário de referência usado pelo Copom, a Ata informa projeções para o IPCA (em 4 trimestres) de 3,4% em 2026 e 3,2% no 3º trimestre de 2027, que é o "horizonte relevante" de política monetária citado.
Ela também explica algumas hipóteses técnicas desse cenário:
Trajetória de juros extraída do Focus
Câmbio partindo de R$ 5,35/US$ e evoluindo por PPC
Petróleo seguindo curva futura por seis meses
Hipótese de bandeira tarifária amarela em dezembro de 2026
Leitura simples: o cenário base "desenha" uma inflação caminhando para perto do objetivo no horizonte relevante. Isso é um dos fatores que permite discutir o início de distensão — desde que as demais condições (expectativas e serviços) também ajudem.
Quando a Selic vai cair? Copom sinaliza corte na próxima reunião
Aqui vem a parte que muita gente quer saber: a Ata sinaliza corte nas próximas reuniões?
Sim. A Ata registra que, após analisar um conjunto amplo de informações, o Copom julgou adequado "sinalizar o início de um ciclo de redução da taxa de juros em sua próxima reunião" — ou seja, em março de 2026.
Mas há um "porém" importante
O Comitê reafirma, de forma unânime, que é necessária a manutenção de juros em níveis restritivos até que se consolide não apenas a desinflação, mas também a ancoragem das expectativas, dado que ainda há fatores pressionando preços, especialmente ligados ao dinamismo do mercado de trabalho.
E o Copom avisa que a magnitude e duração do ciclo de cortes serão definidas ao longo do tempo, conforme novas informações forem entrando — porque ainda existem sinais mistos sobre desaceleração da atividade e seus efeitos sobre preços.
Tradução bem clara:
Sim, o Copom "apontou" para o primeiro corte na próxima reunião, se o cenário se confirmar.
Não, isso não significa cortes rápidos ou grandes. O próprio texto prepara o leitor para um ciclo cauteloso e dependente dos dados.
O que isso significa para o seu bolso?
Sem complicar:
Crédito e parcelamentos: juros altos seguram consumo e ajudam a inflação a cair, mas deixam financiamentos e cartão mais pesados. A manutenção em 15% reforça que esse "custo" ainda é considerado necessário.
Emprego e serviços: como o mercado de trabalho ainda está forte, o BC fica mais cauteloso — porque isso segura a inflação de serviços.
Próximos meses: existe uma luz no fim do túnel, porque o Copom sinalizou corte na próxima reunião se o cenário esperado se confirmar.
Selic em 15% com sinal de queda gradual
A Ata mostra que o Copom manteve a Selic em 15% porque a inflação está cedendo, mas ainda acima da meta, serviços e mercado de trabalho seguem resistentes e expectativas ainda estão desancoradas.
Ao mesmo tempo, sinalizou que pode iniciar um ciclo de baixa na próxima reunião (março de 2026), com prudência e ritmo definido pelos dados que vierem.
Para quem sente o impacto dos juros no dia a dia, a mensagem é: alívio vem, mas de forma gradual.
E você, o que achou da decisão do Copom? Deixe sua opinião nos comentários!
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Fonte: Ata da 276ª Reunião do Copom (27 e 28 de janeiro de 2026) - Banco Central do Brasil
Ricardo São Pedro é engenheiro civil com MBA em Planejamento Financeiro Pessoal e Familiar. Atua como educador e planejador financeiro, promovendo a educação financeira como instrumento de cidadania e transformação social. Idealizador da web rádio Radium, produz e apresenta programas que integram finanças, bem-estar e temas relevantes para a vida dos brasileiros. Também assina artigos no blog da rádio e participa de projetos voltados à inclusão e à segurança financeira das famílias.


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