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Brasil volta a sair do Mapa da Fome, mas o desafio está longe de acabar

23 de jul.
6 min de leitura

Atualizado: 24 de jul.

Análise técnica do Pacto Contra a Fome mostra que o avanço é histórico, mas revela números que merecem tanta atenção quanto a boa notícia.


Família brasileira reunida durante uma refeição saudável ao lado do título "Brasil volta a sair do Mapa da Fome, mas o desafio está longe de acabar". A imagem destaca dados da análise técnica do Pacto Contra a Fome, incluindo que 28,5 milhões de brasileiros ainda vivem em insegurança alimentar moderada ou severa e que 50,2 milhões de pessoas não possuem renda suficiente para garantir uma alimentação saudável.
Análise técnica do Pacto Contra a Fome mostra que o Brasil voltou a ficar fora do Mapa da Fome, mas alerta que milhões de brasileiros ainda enfrentam insegurança alimentar e dificuldades para acessar uma alimentação saudável.

Publicado em 23/07/2026 / 12:00

Por Ricardo São Pedro (@radiumweb)


Ouça o Artigo

A divulgação do relatório The State of Food Security and Nutrition in the World (SOFI 2025), elaborado pela FAO, IFAD, UNICEF, WFP e OMS, ganhou enorme repercussão ao confirmar que o Brasil voltou a ficar fora do Mapa da Fome.


É uma notícia importante. E merece ser comemorada.


Mas também merece ser compreendida.


As manchetes destacaram apenas o resultado final. Entretanto, a análise técnica produzida pelo Pacto Contra a Fome demonstra que o relatório vai muito além dessa informação e apresenta um diagnóstico bastante mais amplo sobre a realidade alimentar brasileira.


Nesta página, disponibilizamos também o download gratuito da análise técnica completa do Pacto Contra a Fome, para que nossos leitores possam conhecer integralmente os dados e as conclusões que fundamentam este artigo.


O que significa estar fora do Mapa da Fome?


Existe um equívoco muito comum.


Sair do Mapa da Fome não significa que ninguém mais passe fome.


O indicador utilizado pela FAO é a Prevalência de Subalimentação (PoU), que estima a parcela da população cuja ingestão habitual de calorias é insuficiente para manter uma vida ativa e saudável.


Quando esse percentual fica abaixo de 2,5% da população, o país deixa de integrar o chamado Mapa da Fome. O próprio documento destaca que esse indicador não deve ser confundido com outras formas de insegurança alimentar nem com os indicadores utilizados pelo IBGE.


Isso explica por que um país pode estar fora do Mapa da Fome e, ainda assim, possuir milhões de pessoas vivendo em situação de vulnerabilidade alimentar.


O Brasil apresentou uma evolução significativa


Segundo a análise técnica, o percentual de brasileiros em situação de subalimentação caiu de 3,2% para menos de 2,5%, permitindo que o país voltasse a ficar abaixo do limite utilizado internacionalmente pela FAO.


O desempenho brasileiro também foi um dos principais responsáveis pela melhora observada na América Latina e na América do Sul, destacando o país como uma referência regional na recuperação dos indicadores de segurança alimentar.


Esse resultado representa um avanço relevante e demonstra que políticas públicas, crescimento da renda e recuperação econômica podem produzir impactos concretos sobre a vida da população.


O dado que recebeu pouca atenção


Se as manchetes parassem apenas no Mapa da Fome, perderíamos talvez a informação mais importante de todo o relatório.


Mesmo com a melhora registrada, 13,5% da população brasileira ainda vive em situação de insegurança alimentar moderada ou severa.


Na prática, isso representa aproximadamente:


28,5 milhões de brasileiros.


Essas pessoas convivem com dificuldades para manter acesso regular a alimentos em quantidade ou qualidade adequadas, ainda que nem todas estejam em condição de subalimentação extrema.


Esse dado mostra que a insegurança alimentar possui diferentes níveis e exige políticas públicas igualmente abrangentes.


Comer mal também é insegurança alimentar


Outro aspecto muito pouco discutido é que segurança alimentar não significa apenas "ter comida no prato".


O relatório destaca que famílias podem reduzir:


  • a qualidade dos alimentos;

  • a variedade nutricional;

  • a diversidade das refeições;

  • a quantidade consumida.


Isso ocorre principalmente quando o orçamento familiar é pressionado pela alta dos preços dos alimentos.


Em outras palavras, muitas famílias continuam se alimentando, mas deixam de consumir proteínas, frutas, verduras e outros alimentos de maior qualidade nutricional para priorizar produtos mais baratos.


Esse fenômeno ajuda a explicar por que países podem enfrentar simultaneamente fome, obesidade e doenças relacionadas à má alimentação.


A inflação dos alimentos continua sendo uma ameaça


A análise técnica chama atenção para um fator que continua pressionando milhões de famílias brasileiras: o aumento dos preços dos alimentos.


Desde a pandemia, a inflação alimentar tem reduzido o poder de compra dos consumidores, levando muitas famílias a optar por produtos menos nutritivos ou simplesmente diminuir a quantidade adquirida.


Mesmo quando a renda cresce, aumentos persistentes no preço da alimentação podem comprometer parte dos avanços obtidos na segurança alimentar.


Alimentação saudável ainda não cabe no orçamento de milhões de brasileiros

Talvez o dado mais impressionante da análise seja este:


23,7% da população brasileira não possui renda suficiente para adquirir uma dieta considerada saudável.


Isso representa cerca de:


50,2 milhões de pessoas.


O relatório informa ainda que o custo médio de uma alimentação saudável no Brasil chegou a US$ 4,69 por pessoa por dia, acumulando alta próxima de 49% desde o início da série histórica apresentada.


Esse número revela que o debate sobre segurança alimentar também passa pela renda das famílias, pela inflação e pela capacidade de acesso econômico aos alimentos.


Alimentação também é política de saúde


Outro ponto importante do estudo é a relação entre alimentação e saúde pública.


Dietas inadequadas contribuem para o crescimento da obesidade, diabetes, hipertensão e outras doenças crônicas que aumentam a demanda por atendimento no Sistema Único de Saúde.


O documento lembra que, atualmente, aproximadamente um em cada quatro adultos brasileiros vive com obesidade, reforçando que combater a insegurança alimentar também significa promover alimentação de melhor qualidade.


Quais fatores contribuíram para essa melhora?


A análise técnica evita explicações simplistas.


Em vez de atribuir os resultados a uma única política pública, o documento destaca a importância da articulação entre diferentes instrumentos, como:


  • Programa Bolsa Família;

  • Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE);

  • Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (SISAN);

  • Programa de Aquisição de Alimentos (PAA);

  • Programa Cisternas;

  • fortalecimento da agricultura familiar;

  • participação da sociedade civil;

  • integração entre políticas sociais e de segurança alimentar.


O relatório evidencia que resultados sustentáveis costumam surgir quando diferentes políticas atuam de forma coordenada.


O maior desafio começa agora


Talvez a principal mensagem da análise técnica seja justamente esta:


O Brasil voltou a sair do Mapa da Fome, mas ainda não eliminou a insegurança alimentar.


Persistem bolsões de vulnerabilidade entre pessoas em situação de rua, populações sem documentação, grupos em mobilidade e famílias que ainda não conseguem acessar plenamente as políticas públicas.


Além disso, fatores como inflação dos alimentos, mudanças climáticas, desigualdades regionais e crises econômicas continuam representando riscos para a manutenção dos avanços conquistados. Por isso, o relatório defende o fortalecimento permanente de sistemas como o SISAN, o SUAS e o SUS, além da continuidade das políticas voltadas à segurança alimentar.


Um debate que precisa ser qualificado


A saída do Brasil do Mapa da Fome é um resultado relevante e merece reconhecimento. Mas ela não deve encerrar o debate sobre segurança alimentar. Pelo contrário, deve ampliá-lo.


Os dados apresentados pela análise técnica do Pacto Contra a Fome mostram que o país avançou de forma consistente, mas ainda convive com milhões de brasileiros que enfrentam dificuldades para acessar alimentos em quantidade e qualidade adequadas. Também evidenciam que segurança alimentar depende de fatores econômicos, sociais e institucionais que exigem continuidade, planejamento e monitoramento permanente.


Na Radium, acreditamos que informação de qualidade é um instrumento essencial para a construção de políticas públicas mais eficazes e para a formação de cidadãos capazes de compreender a realidade para além das manchetes. Por isso, convidamos você a baixar gratuitamente a análise técnica completa do Pacto Contra a Fome, disponível nesta página, e aprofundar sua compreensão sobre um dos temas mais relevantes para o desenvolvimento do Brasil.


Infográfico


Infográfico que explica o significado da saída do Brasil do Mapa da Fome com base na análise técnica do Pacto Contra a Fome. Destaca que o país voltou a ficar abaixo do limite internacional de subalimentação, mas alerta que 28,5 milhões de brasileiros ainda vivem em insegurança alimentar moderada ou severa, 50,2 milhões não possuem renda suficiente para uma alimentação saudável e a inflação dos alimentos continua sendo um dos principais desafios para a segurança alimentar.

Perguntas frequentes (FAQ)


O que significa sair do Mapa da Fome?

Significa que a Prevalência de Subalimentação (PoU) ficou abaixo de 2,5% da população, conforme metodologia da FAO. Isso não significa que a fome tenha sido totalmente erradicada.

Sim. A análise técnica aponta que cerca de 28,5 milhões de brasileiros permanecem em situação de insegurança alimentar moderada ou severa.

Segundo a análise técnica do Pacto Contra a Fome, aproximadamente 50,2 milhões de brasileiros não possuem renda suficiente para adquirir uma dieta saudável.

O documento completo do Pacto Contra a Fome está disponível para download gratuito nesta página, permitindo que qualquer leitor consulte diretamente os dados, gráficos e interpretações que fundamentam esta análise.


Análise Técnica



Sobre o autor:


Ricardo São Pedro é engenheiro civil, educador financeiro e planejador financeiro. Atua na promoção da educação financeira e da cidadania por meio de artigos, palestras, programas de rádio e projetos de comunicação.


É cofundador e apresentador da Radium, onde produz conteúdos sobre economia, finanças, gestão pública e desenvolvimento humano.

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